A força que não se vê
Uma crónica sobre persistência, paisagem e a força silenciosa que nos move.

A escrita não são as palavras. Nunca foram *— *são apenas o mapa. O significado de uma palavra é dado por outro vocábulo - uma aproximação. Levando-nos numa direção e depois a outra e assim sucessivamente.
A linguagem é esse rio que corre em direções diferentes e converge no oceano do silêncio - inalterável, eterno, puro. Podemos adicionar camadas mas o silêncio nunca se altera, sempre presente. Foi no silêncio que as palavras nasceram e para onde regressam quando deixam de ser necessárias.
“Há uma voz que não usa palavras. Escute.” Rumi
Talvez seja o silêncio o verdadeiro autor. As palavras são uma aproximação para chegarmos até ele. Talvez por isso escrever seja um acto de escuta. Quando deixamos de ouvir, perdemos o fio.
Quando ouço Elis Regina não são as palavras, a melodia, ou a sua voz que despertam lugares em mim. Também não é pela sua personalidade. Até ao dia de hoje guardo ignorância sobre a sua pessoa. É a força que vem por detrás de tudo que a compõe.
“ Não quero lhe falar Meu grande amor Das coisas que aprendi Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi E tudo o que aconteceu comigo Viver é melhor que sonhar Eu sei que o amor É uma coisa boa Mas também sei Que qualquer canto É menor do que a vida De qualquer pessoa
“
Não podemos prever ou empenhar esforço para controlarmos o nosso próximo pensamento. Da mesma forma, o escritor não escolhe as próximas palavras que vai escrever. Escrevo, esse é o meu trabalho diário — enquanto o impulso existir. Tal como o lixeiro, todos os dias recolhe o lixo. A sua experiência vem das horas dedicada ao ofício. Aprendo que a entrega vem de aceitar o trabalho como propósito.
Há dias em que essa entrega me parece simples. Noutros, é como se o silêncio se tornasse um abismo. E o que antes era fluidez, vira peso.
Já perdi a sanidade. Há dias que não vejo um palmo à frente, em que duvido de tudo, até de mim. Sinto-me a andar nu entre as pessoas — sem os disfarces que antes me davam segurança: um título, um amor, um salário. Fui ao mar e deixei lá tudo. Ficou para trás.
Às vezes não me sinto ninguém, ainda assim há uma certeza muda de que sigo o caminho certo. Fico à deriva, sem mastro nem motor, encadeado pelas miragens das ilusões, preso às carências, às dores antigas. Remo como posso, com as mãos, cansado, zangado, perdido. Quanto mais tento controlar, mais tudo me escapa. Tantas vezes não é como gostaria — e o mar continua a levar-me.
“ Não sou eu quem me navega Quem me navega é o mar É ele quem me carrega Como nem fosse levar
“ 1
Há dias em que entendo estas palavras. Outros em que me esqueço e volto a remar contra o propósito. Talvez fosse preciso perder tudo para compreender o que permanece. Foi então que percebi: escrever era também uma forma de regressar a mim.
Quantas vezes escrevo e sinto que não sou eu. Igualmente quando leio textos antigos, não me reconheço. É como se algo maior me atravessasse e o meu labor é não atrapalhar esse fluxo. Nesses momentos, o esforço desaparece, a mente relaxa, e fico só a ouvir — tentando não perder o rasto de uma melodia distante.
Talvez o trabalho do artista não seja criar, mas deixar-se ser criado. A força do trabalho eleva-se quando me entrego dissolvendo a individualidade. Servindo-me da energia das emoções para criar. Colocando-me ao serviço.
Todo o trabalho faz parte de algo tão grande que não se pode apreciar na sua totalidade, mas que sinto quando ouço uma música:
“ É de sonho e de pó O destino de um só Feito eu perdido em pensamentos Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó De gibeira o jiló Dessa vida cumprida a sol
Sou caipira, pira, pora Nossa Senhora de Aparecida Ilumina a mina escura E funda o trem da minha vida ”
A mesma entrega que imagino no Bruno, sozinho, diante da tela a tentar pintar aquilo que já o pintava por dentro.

Contigo, meu querido Bruno, ouço estas palavras:
A escrita também é isso: não é sobre as palavras, nunca foi, nunca será, mas o que as move. Elas guiam-nos, como faróis, para lugares onde não chegaríamos de outra forma. E quanto mais me fundo com o que escrevo, mais sinto que não escrevo sozinho.
Percebo então que a entrega do artista não termina na criação. É apenas o início de outro movimento — o de quem recebe, e reconhece, essa mesma força em si.
Na apreciação de uma pintura, uma fotografia ou de um livro, sinto a mente a relaxar-se. Um hiato de pensamentos. Sintonizando com algo familiar por detrás das formas. As lágrimas escorrem dessa lembrança — uma espécie de redenção silenciosa, um reencontro com o mistério de quem somos.
Talvez seja isso que a arte faz: devolve-nos ao essencial. Mostra-nos a beleza que está aqui, mesmo quando não a vemos.
Foi então que um livro me mostrou o caminho, com a sabedoria de quem chega no momento certo — “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde.
“Todo o retrato que é pintado com sentimento é um retrato do artista e não do modelo. O modelo é apenas o acidente, o pretexto. Não é ele que é revelado pelo pintor; é antes o pintor que, na sua tela colorida, se revela a si próprio.”
Ao criar, o artista mostra-se inteiro, mesmo sem querer. A força do seu trabalho não vem dos seus elementos: do acrílico, do pastel, da melodia, da voz ou das palavras.
Vem daquilo que o artista coloca nelas — a energia, a vida, a devoção.
Quando essa entrega acontece, as nuvens abrem-se, e o sol — que nunca deixou de estar — volta a brilhar.
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Timoneiro de Martinho Da Vila