Glória e Dor

A outra e a pavlova: crónica de um natal vesuviano

A delicada arte de sobreviver à consoada

Qualquer família tradicional, de marido e mulher, mais filhos e os pais, já detém ingredientes suficientes para que, durante a consoada natalícia, nas poucas pausas de silêncio, se possa escutar o tic-tac, tic-tac, de uma bomba prestes a rebentar. Nunca se sabe se será nas entradas, durante o bacalhau ou ao sabor das rabanadas. E não há família neste país que ponha as mãos no fogo que vá ter uma santa e descansada consoada.

A consoada é como um daqueles desafios dos Jogos Sem Fronteiras: ninguém sabe o que anda a fazer, todos querem que corra bem, mas, até acabar, tudo pode acontecer. Agora imaginem uma consoada filmada com comentários ao vivo e em direto do Eládio Clímaco. Pouco faltará para esse* reality show.*

Vejamos os ingredientes deste artefato caseiro natalício: familiares que não se vêem há muito tempo, distintas gerações, uma esposa e um marido, um pouco de crianças e um pouco de uma matéria altamente instável - os pais. E temos o cocktail mais explosivo na sala de qualquer casa deste país, do mundo e, se forem concretizadas as ambições de E. Musk, em breve também em Marte.

É por isso que, nesta tradição, há uma fartazana de doçaria, de bebida, de frutos secos, de entradas, de canapés e de marisco. Todos estes ingredientes têm a difícil missão de entorpecer e reduzir - porque é impossível evitar - os efeitos da explosão. Mas, ainda assim ninguém está a salvo de uma consoada vesuviana.

Pavlova

Foi o que aconteceu a Rogério. Mas, com alguns toppings para tornar as coisas ainda mais interessantes. Rogério não tem uma família convencional. Reside na Austrália, um país com algumas… bastantes… com antípodas diferenças culturais em relação a Portugal. Tem duas filhas, Abby e Charlotte, de mulheres diferentes. Mas, este ano, adicionou mais um tempero a esta consoada: convidou a sua mãe, de Portugal, a passar as festas na sua casa em Sydney.

A sua mãe, como qualquer pai e mãe - deixemos a hipocrisia fora desta mesa da consoada - tem filhos e netos preferidos. Filho, só o tem a ele. Rogério é filho único. Tem duas netas, e a sua preferência cai na primeira, Charlotte. Para juntar emoção, a sua neta preferida é do primeiro casamento, da outra mulher que não estava na consoada. Já temos um bom início de história, mas há mais. A sua mãe constantemente maltrata Abby - a não preferida. E, claro, Rogério, como pai da criança, não gosta de ver a filha ser maltratada pela avó.

E assim começa a história que me contou Rogério.

Dia 24, por volta das cinco da tarde, estamos em preparativos para a consoada. As crianças a ajudarem com as decorações, Jenna (a sua mulher) a dar um jeito na sala, e eu e a minha mãe na cozinha. Não seria fácil, mas o dever impunha-se: tinha de falar com ela para que Abby não se sentisse mal tratada pela avó.

Ter essa conversa é caminhar em território inimigo. Só de mencionar o assunto, ela já arregaça as garras; se a coisa descambar, dispara em gritaria. Com suavidade, e alguma assertividade, disse-lhe que tratasse melhor a Abby. Ela arranca com a* cassete histeria número um* “Estás sempre a atacar-me, não posso fazer nem dizer nada!”.

Sou arremessado por este tiroteio na cozinha. Respirei fundo, recuperei a calma e lá fui eu outra vez. Primeiro, pensei em sugerir-lhe que talvez a sua percepção estivesse inclinada, a sua visão fosse parcial. Depois, felizmente, percebi a tempo que isso seria meter-me num buraco de onde não iria regressar com vida. Pedi-lhe que tivesse mais cuidado no trato com a Abby. Desta vez ela foi mais gentil e respondeu-me, em voz alta, mas sem gritar:

  • Isso não é, de todo verdade. Eu trato as duas de forma exatamente igual!

  • Mãe, tu referes-te à Charlotte (a sua preferida) por “Lolo” e à Abby por “a outra”.

Ela suspirou, chateada, e abandonou a cozinha a tocar a cassete vítima número um:

  • É que não se pode dizer nada que fica logo chateado. Não dá para ter uma conversa. Tudo o chateia, tudo lhe incomoda.

O resultado foi o esperado.

Aproveitei para ir ver o outro lado da barricada. Fui à sala, onde estava Jenna.

Ela tem uma preferência, obviamente, pela sua filha. Tem também uma frágil relação com a minha mãe. Além de sentir que a sogra não trata bem a sua cria, vê nela uma mulher difícil pela sua rispidez e pelos seus constantes - e nunca pedidos - conselhos.

Preciso de interromper o relato de Rogério e escrever uma palavra sobre esse tema.

As avós portuguesas acham que a sua sabedoria tem de ser distribuída gratuitamente por toda a gente. Atiram conselhos sem serem pedidos, antes de dizerem bom dia. Acreditam que têm a fórmula para salvar famílias, o país e o mundo. Para nós portugueses, este fenómeno é tão natural como a quantidade de familiares e amigos em cargos públicos.

Conhecemos esta estranha forma de vida e, ainda assim, não estamos imunes. Cada vez que nos disparam um conselho - mesmo com quarenta anos de experiência no assunto - é suficiente para nos fazer saltar o pipo e perdermos as formas.

Agora imaginem uma mulher adulta australiana, criada num país muito mais relaxado, onde não há lugar para esta rispidez portuguesa e arremesso gratuito de conselhos de como se deve fazer e viver.

Os australianos vivem num ambiente socialmente menos hostil, sem a culpa nem a tristeza de um país que queria ser outra coisa do que é. Por lá, as trocas são mais leves, os filhos deixam a casa dos pais antes dos trinta e, também, antes dos quarenta anos de idade. Há trabalho e é bem pago.

É muito mais um estilo de vida onde se vive e se deixa viver do que, em contrapartida com Portugal, “faz o que te digo”, “estás a fazer mal”, “olha o que vão dizer por aí”.

Portanto, uma avó portuguesa com carácter e uma australiana que nunca viveu nem sofreu o desígnio português. Não é de todo fácil. É literalmente juntar dois antípodas, colocá-las numa casa e ver o que sucede. Ninguém sabe. Não há estudos sobre isto. Este Big Brother acabaria ao sétimo dia.

De volta à história de Rogério.

Encontrei Jenna a organizar a sala. O ambiente em casa já se vinha deteriorando desde a chegada da minha mãe. Foi há três semanas e faltam agora sete dias para a sua partida. Com os seus sessenta e nove anos, os poucos filtros que tinha já caíram. Os pensamentos são verbalizados sem qualquer pré-processamento. Quem não gosta? Que se aguente.

A tarde foi-se desenrolando. A avó fazia o costume: ía pelos corredores da casa, atirando conselhos de como devíamos educar as crianças ou o que lhes devíamos dar de comer. Jenna escutava e fervia um pouco por dentro. O meu olfato sente o cheiro de rastilho a queimar. A tensão sobe como as borbulhas da água a ferver que cozem as couves para o bacalhau.

Com o intuito de baixar a fervura, lembrei-me de uma pequena surpresa. Chamei a minha mãe à cozinha. Este ano comprei um bolo sem açúcar. Ando a tentar comer menos açúcar e também ela é adepta dessa modalidade. Retirei do frigorífico a imensa caixa de cartão comprida:

  • Mãe, este bolo é de banana com ganache de cacau e, por cima tem avelãs. Sem açúcar!

  • Gosto muito de bolos com cacau!

  • Também eu.

É um bolo bastante comprido e alto com uma ótima apresentação. Custou o dobro de qualquer bomba de açúcar tradicional, mas enfim, seria para uma boa causa. Assim que ela pôs os olhos no bolo, rasgou-se um enorme sorriso no rosto e atirou:

  • O bolo pode não valer nada, mas tem um ótimo aspeto.

  • Mas porque é que estás a assumir que não vale nada?

  • Filho só estou a dizer. Agora também não posso dar a minha opinião? É que não posso dizer nada nesta casa. É impossível falar contigo.

E arranca outra vez com a cassete vítima número um. Obviamente, não gostou do bolo. Ninguém gostou do bolo. Tenho três quilos e meio de bolo de banana sem açúcar, a ocupar uma prateleira inteira do frigorífico para despachar nos próximos cinco dias.

Agarrei-me a uma tarefa para desanuviar. Levei as entradas para a mesa da sala. Um momento de paz neste campo de batalha. Terminei e encontrei a minha mãe com a sua neta desamada, Abby:

  • Abby, podes ajudar-me a avó a levar estes garfos para a mesa?

  • sim, avó! - respondeu Abby

Entretanto, Abby saiu da cozinha a cantarolar uma música. Fico a sós com a minha mãe na cozinha. Havia uma tensão no ar. As últimas três semanas, desde que a minha mãe chegou, têm sido desafiantes, para não dizer duras. É inegável que ela nos dá um apoio que nunca temos o resto do ano. Ela cozinha refeições, dá banho às crianças, prepara lanches para a escola, dá um jeito na casa enquanto estamos a trabalhar. E estamos agradecidos por isso. Mas, no final do dia, quando todos estamos em casa, é quando os desafios entram pela janela sem avisar.

Abby voltou com uns brinquedos na mão

  • Abby, não me queres ajudar? - volta a perguntar

  • Ah, não!

Como qualquer criança de seis anos, as suas vontades mudam a cada segundo.

  • Odeias a tua avó, não odeias?

  • Claro que não!!! - desfazendo-se em lágrimas

Abraço-a num pranto de lágrimas. Disse-lhe que a avó gosta muito dela. Ela afasta-se e vai a correr, em lágrimas, a chamar pela mãe. A minha mãe fica a serpentear pela cozinha.Quem não a conhecesse, diria que, pela sua expressão estaria, tudo no devido lugar, Mas eu via, nos seus movimentos, o conflito interno e nos movimentos todas as questões com que se debatia. Com os meus quase dois metros de altura, fiquei no meio da cozinha, sentindo-me um verdadeiro poste sem qualquer utilidade. O que será que se passaria na cabeça dela?

  • As entradas estão cheias de moscas. O melhor é irmos já todos para a mesa, que já são quase oito horas - suspirou a minha mãe.

Fui chamar as crianças para nos sentarmos à mesa.

Trinta minutos depois, estávamos todos à mesa. Quatro mulheres e eu. Arrancámos com a boa disposição das crianças. Charlotte, tem doze anos, * Abby, “a outra*” - como diz a minha mãe - tem seis. Começámos pelas entradas. As crianças, eufóricas, só falavam das prendas. Nada de conversas de adulto, e ainda bem.

Por momentos, relaxei e acreditei que isto, afinal, ainda podia correr bem. Atirei um sorriso e Jenna devolveu-o. Também havia esperança na sua expressão. A minha mãe não sorria mas, conhecendo-a arriscaria que estava bem-disposta. O que passou, passou. Foi só uma pequena crise, nada mais do que isso. Afinal, que família é que não tem estas crises? Somos todos humanos. Na verdade, é uma sorte podermos estar aqui juntos. Todos a esta mesa…

  • Rogério, passa-me as tostas, por favor - pediu-me a minha mãe

Passo-lhe o cesto com as tostas

  • Olha, a outra ainda não tocou na comida.

  • Mãe, chama-se Abby - disse entre dentes.

  • Ela, para comer, é tramada.

  • Deixa-a comer ao seu ritmo.

  • Mas qual ritmo, se ainda não tocou na comida? Boa, Lolo! - como carinhosamente chama à sua preferida - é isso mesmo, já comeste a comida toda. Agora, só falta a outra.

  • Porra, mãe, não lhe chames ‘a outra’!

A cara de Jenna congelou.Tem um bom entendimento de português. Provavelmente, entendeu a conversa. O silêncio sepulcral foi interrompido pelas brincadeiras da criança mais nova. Atirei-me às gambas, procurando um conforto. Antes de lançar-me à segunda gamba, alguém disse que faltavam guardanapos. Fui à cozinha. No regresso, observei a nossa mesa de consoada natalícia. Uma mesa bonita e bem composta. Sorri por dentro.

  • Rogério, não entendo porque é que aquela criança não é capaz de comer!

  • Ela come depois outra coisa.

  • Mas o que é que lhe custa comer?

  • Mãe, é uma criança!

  • A Lolo é criança e já comeu tudo. Mas a outra, claro, tem de ser diferente. É sempre a outra, a outra, a outra… mais a puta da outra.

  • Porra, mãe! Acabaste de chamar “puta” à tua neta! À tua neta! Tens noção disso?!?!

O silêncio após a devastação. Todos morremos um pouco por dentro. Jenna mexeu apenas os olhos e olhou para mim. A minha mãe fixou os olhos no prato e, lentamente, continuou a comer. As crianças saíram da mesa e foram brincar. Eu só pensava: porque raio a convidei para vir cá a casa? E nos setes dias que ainda faltavam para ela ir embora. Ficámos os três na mesa, ninguém disse nada. Um silêncio de uns longos, eternos minutos.

  • Peço desculpa - disse a minha mãe

Fiquei calado. Levantei os pratos da mesa. Fiz várias viagens à cozinha para levar os pratos e as entradas. Regressei à mesa aproximei-me de Jenna, estava concentrada no telemóvel. Olhei para o ecrã e vi que estava a procurar bilhetes de avião.

  • Vamos só passar um fim de semana e depois voltamos - disse-me baixinho.

Regressei à cozinha, deixei os restantes pratos onde havia espaço. A cozinha estava atulhada de louça suja, restos de comida, copos, talheres. Onde se podia ver vestígios de uma celebração, eu via um rastro de destruição. Que desastre de natal. Não sei como, porra, ainda ainda vamos comer o rolo de carne e o bacalhau.

Desisti do bacalhau. Levei apenas o rolo de carne, as batatas e as verduras para a mesa. Jenna e a sogra não diziam uma palavra. A sogra bebia vinho e Jenna, afincada ao telemóvel, seguramente já estaria a comprar os bilhetes.

Chamei as crianças. Mais uma vez, eram elas que dirigiam as conversas da mesa. A minha mãe alegrava-se a olhar para a sua favorita e a fazer-lhe perguntas. Com *a outra, *nada dizia. Uma avó de quase setenta anos que não se dá com uma miúda de quase sete. A rifa que me foi calhar. Durante estes pensamentos, ia comendo o rolo de carne. Jenna disse que não tinha mais apetite. As crianças pouco comeram e saíram da mesa. Levantei os pratos, talheres, a travessa com o rolo de carne e levei tudo o que não fazia falta para a cozinha.

Regressei com as sobremesas. As crianças correram para os doces. Serviram-se em quantidade e sem dificuldade. Voltei à cozinha para ir buscar o bolo de banana sem açúcar e uma pavlova. Regressei e coloquei os bolos em cima da mesa. As crianças perguntaram pelo bolo de aspeto diferente. Disse-lhes que era de banana com avelãs e chocolate. Se dissesse “cacau”, iriam pôr cara estranha. E sem açúcar. As duas torceram o nariz. Jenna, olhou-me com cara de “mas que ideia foi essa de bolo de banana?”. A minha mãe apenas comeu a sua mousse de chocolate. Voltei à cozinha para ir buscar duas facas para servir a pavlova e o bolo de banana. Ordenei um pouco o caos da cozinha. Quando regressei à sala, já não estava ninguém à mesa.

Olhei para o bolo de banana, sem açúcar, com todos os seus ingredientes biológicos. Saudável! Uma apresentação exímia! Depois olho para a pavlova e pensei, Ah! foda-se!

Poucos momentos depois, Jenna regressou à mesa da sala.

  • Comeste meia pavlova sozinho?

Ainda tinha a boca cheia de chantilly.

O bolo de banana resistia. Intacto. Nem um único mordisco.