Glória e Dor

Cheguei chegando. Bom, mais ou menos.

Uma viagem onde o idioma atrapalha

Cheguei a Lisboa, ao aeroporto, ainda de madrugada. O ar estava fresco, não muito frio - na amenidade que quase sempre, Setembro nos oferece. Passei o controlo de segurança, normalmente empanturrado, hoje vazio, estranhamento calmo. Só os líquidos, os portáteis já não é preciso retirar. Pessoas descalças, outras com o cinto na mão, outras com frascos e frasquinhos. Pode passar. Continuei. O voo que me espera é intercontinental. Palavra quase tão longa como o destino que me espera. No entanto, não tão longa como a palavra que descreve o medo irracional e exagerado de palavras longas, hipopotomonstrosesquipedaliofobia. Mas vamos ao que vinha, destino São Paulo.

Montra de Quiosque da Avenida Paulista

Coloquei o passaporte, eletrónico com chip, e abriram-se as portas da maquineta. Passo pela polícia de emigração. Boa viagem. Para muitas viagens estas são as últimas palavras do idioma que digo meu. A despedida do conhecido.

De seguida, há uma calma e o silêncio de um monstro adormecido, o rebuliço do aeroporto prestes a despertar. Passaporte carimbado e já me sinto em águas internacionais. Ainda não estou lá, mas também já não estou cá. Todos os que aqui estamos, todas estas caras ensonadas, esperamos por partir. As caras e as vestes que envergam, não são de cá. A sensação é de uma viagem que já me esperava. Tal como os livros, as viagens parecem destinadas.

Ainda não embarquei e mesmo sabendo o destino, não sei onde me levará. Parece que já sinto o idioma e o ar a mudar. Será esta terra de ninguém onde me encontro, o preparo para o que aí vem?

Vou à casa de banho. Talvez tenha sido nesse momento que dei por mim a sair do meu território. As viagens começam nas palavras que deixamos para trás.

Seria a última vez, das próximas semanas, que usaria a palavra casa de banho. Repito devagar: c-a-s-a d-e b-a-n-h-o. Soa estranho. Será que se trata de uma casa onde exclusivamente se toma banho? Deve ser isso que um brasileiro pensa quando lhe perguntamos “Onde é a casa de banho?”.

De agora em adiante direi, abrindo bem as vogais, b-a-n-h-e-i-r-o.

Mas, banheiro sempre teve outro significado. Durante vinte anos fiz férias de verão na mesma praia do Algarve, em Armação de Pêra. Ao lado de uma fortaleza. No sopé dessa fortaleza havia uma barraquinha em madeira. E ao lado direito, num poleiro, um papagaio vermelho, “olá, olá”, repetia. Essa pequena cabana, era a nossa felicidade às onze horas da manhã. Não precisavam de nos avisar, nem de vermos as horas, até porque não tinha relógio. O perfume no ar anunciava o que estava por vir. Corria a pedir à minha mãe as poucos moedas, ainda em escudos, corria de volta. Acabavam de sair as primeiras farturas. Aquela espiral recém frita era colocada numa cama de açúcar e canela, e o tio Álvaro das farturas, entregava aqueles quinze centímetros de massa frita num pedaço de papel. Logo na primeira dentada, ficava com bigode de açúcar e canela. Que delícia. Hoje, seria azia certa.

O areal apinhado de cogumelos, por cá chamamos chapéus de sol. Depois das nove e meia da manhã, apenas há espaço para as migalhas das sandes embrulhadas em papel de alumínio. Há quem venha antes do sol nascer, reservar o seu talhão de areia, espetam o chapéu, colocam as toalhas, e assim marcam o seu território. Alguns, vi eu acabado de sair da discoteca, fazem-no em pijama, e depois, voltam para casa.

A barraca das farturas foi-se, assim com o tio Álvaro e o seu papagaio vermelho. Ali perto, bem em cima do areal, nasceu um mamarracho moderno, feio que dói. Depois vieram os exércitos de vendedores a percorrer o areal gritando “Olha a Bola, a Bolinha de Creme, de Nutella e sem creme”. Os mais poupados compram em terra firme, os descontraídos no areal e só os mais resilientes resistem aos encantos do açúcar.

Lembro-me da minha mãe dizer, “Ali está o banheiro”. Ora, o banheiro, nem no Algarve nem em Lamego, se refere à casa de banho, mas à pessoa responsável pela vigilância da praia.

Há quem lhe chame nadador-salvador ou salva-vidas… mas ele é muito mais do que isso: aluga toldos, barracas, gaivotas (calma Brasil - não são gaivotas amestradas, mas um tipo de embarcação recreativa a pedais). Também trata do aluguer de motas de água, pranchas de windsurf, skis aquáticos, wakeboard e mais alguma coisa que não me recordo.

Banheiro era, para mim criança, o rei do pedaço, o manda-chuva da praia. O tipo mandava em tudo e, se fosse preciso, em vinte anos nunca foi preciso, salvava vidas - as ondas raramente passam a altura dos joelhos. Agora, quatro décadas depois, quando os meus pés pisarem solo brasileiro, um banheiro passará a ser apenas um cubículo com um vaso sanitário, um rolo de papel e um autoclismo.

Saí do banheiro e fui para a zona de embarque. O sol ainda não se via, mas os seus tentáculos em tons de dourado já pintavam os aviões adormecidos no asfalto. Fui aos ecrãs procurar a porta de embarque. Encontrei - a piada era tão fácil, tentei, juro que tentei, mas não me consegui conter - os brasileiros gostam tanto de beber que chamaram ao aeroporto de São Paulo Viracopos. Hahahah. Ri-me, sozinho. Ninguém deu por nada. As caras internacionais continuaram ensonadas no aeroporto Humberto Delgado — o “general sem medo” que pagou a sua coragem com a vida, um tiro na cabeça, abatido pela polícia política.

Escrevi uma mensagem ao Galego. Ele viveu vários anos no Brasil - creio que um ano e meio em São Paulo e um ano em Manaus. O gajo também é escritor. A diferença é que a ele pagam-lhe, e bem, as revistas internacionais de ciência. Enviei-lhe a piada do Viracopos. O seu silêncio denunciava o fracasso da óbvia piada.

Trinta minutos depois respondeu. Disse exatamente o mesmo que o meu pai me dissera dois dias antes - mas ao meu pai não lhe fiz nenhum caso.

  • Então vais para Campinas!
  • Vou pa’ São Paulo!
  • Certo, mas … - e foi neste momento que os brasileiros se riram da minha ignorância - Viracopos fica em Campinas que está *a tomar por culo *de São Paulo.

O meu sorriso transformou-se em apuro. Pesquisei. A minha ignorância confirmou-se: Campinas está a duas horas de autocarro da cidade de São Paulo. Autocarro, essa palavra também ficava pelo caminho - daí em diante, ónibus. Na hora de comprar as passagens (nunca bilhetes) havia outros voos, poucos euros mais caros, que iriam de certeza para outro aeroporto mais central. Mas para quê gastar mais? A piada riu-se de mim - e eu também.

Não tinha outro remédio, aceitei o que me esperava: viagem de avião, depois de ónibus e táxi até ao destino. No momento em que aceitei o por vir, fui agraciado com um presente. Entrei no avião, sentei-me no assento que me estava destinado e recebi a melhor prenda que qualquer viajante de classe média pode almejar: lugar à janela e assento do lado vazio.

Estiquei as pernas e, com um prazer burguês, deixei o olhar saborear a miséria onde se encontravam os restantes passageiros da traseira do avião: todos enlatados nos seus pequenos assentos.

Foi provavelmente esta sobrançaria que me trouxe outro *regalo. *No voo de regresso, São Paulo-Lisboa, a vida tratou de equilibrar a balança: lugar corredor, o pior dos três, ao meu lado o tipo mais obeso do avião, não era forte, nem era gordo ou gordinho, era para lá de 130 quilos; à frente um casal amoroso com um bebé de dois anos que chorou constantemente entre duas tonalidades durante seis horas seguidas; e, nos pés, uma qualquer porcaria, alguma peça do avião a ocupar o pouco espaço que me restava. Mas ainda faltava um pequeno detalhe, o assento não reclinava. A justiça serve-se quando menos esperamos.

São Paulo

As quase onze horas de voo, Lisboa - São Paulo, passaram suavemente. Entre comida, leituras e cochilos, a sesta ficou lá atrás. Quando dei por mim estava na cidade de Campinas, no estado de São Paulo. Efetivamente, o voo era para São Paulo — mas não para a cidade.

Esperei uma hora para passar o controlo de emigração.

  • Vai ficar quanto tempo no Brasil?

  • Um mês

  • Bem-vindo!

  • Obrigado.

Não sendo a primeira vez que visitava o país, de medidas e variedades continentais, esperava que a comunicação luso-brasileira fosse correr de maravilha. Afinal, já tinha aprendido o kit básico de adaptação linguística: do português da terrinha para o português do outro lado do mundo.

Para quem acha que “falamos todos o mesmo idioma”, deixo um aviso: essa ingenuidade tem a dimensão do oceano que nos separa. Tecnicamente sim, falamos o mesmo idioma, na prática, sem o kit básico, ninguém se entende.

Lembro-me de uma manhã em Berlim. O sol já ia alto quando saí da discoteca. Pelo caminho, não me recordo como aconteceu, conheci uma moça bem bonita. Pele clara, quase translúcida, cabelos curtos e negros. Para minha surpresa: carioca. E, pela primeira vez ela falava com um português. Também para mim era a primeira vez que falava com uma brasileira que nunca tinha tido falado com um português. Depois de meses em Berlim, entusiasmei-me com a ideia de poder finalmente falar o nosso idioma, e ela, sentiu exatamente o mesmo.

Arrancámos com alegria e otimismo, e cinco minutos depois estávamos a falar em inglês. Ela não entendia as minhas frases e eu não entendia o que é que ela não estava a entender das minhas falas.

Um milagre linguístico: não nos entendemos no mesmo idioma. Voltámos a tentar, e mais uma vez erguia-se uma parede. Naquela manhã falámos apenas em inglês. Acabámos na casa de uns suecos, havia uma pequena festa. Não conhecia ninguém. Fui ficando. Às três da tarde senti ser o momento de recolher, despedimo-nos, a festa continuou, eu fui para casa.

Ah, mas em Portugal há tantos brasileiros”. É certo, são a maior comunidade estrangeira. Mas os brasileiros que por cá vivem já aprenderam o kit básico, adaptaram-se ao nosso sotaque e às nossas manias. Um português conversa com um brasileiro residente em Portugal e acha que afinal não existem diferenças do português de cá e do de lá - o que desconhece é que o brasileiro já está, linguisticamente falando, aportuguesado.

O brasileiro aportuguesado já sabe que bué quer dizer muito. Que tudo pode ser um sítio: um bar, um restaurante, um lugar de estacionamento, tudo. Que comemos mais vogais que arroz. E que falamos de boca meio fechada.

Sem o kit básico a comunicação torna-se um verdadeiro enigma. Ora vejamos.

Sacola, e não saco. Pequeno-almoço soa a piada - o certo é café da manhã, mesmo que não haja café para beber. Cão, ninguém entende: é cachorro. E cachorro também serve de adjetivo para as pessoas. Nesse caso, alongar e carregar a sílaba tónica cachooooooorro. Por cá, talvez pela veia poética e literária, adoramos sentir a brisa do mar. Por lá também gostam da brisa - mas o significado muda ligeiramente: é o efeito prazeroso provocado pelo consumo de droga. Se quiserem ser observados como um extraterrestre, digam frigorífico. O correto, por lá, é geladeira. Por cá fazemos uma direta: por lá viram a noite. Por cá é passagem de ano, por lá, virada do ano. Nós damos boleia: eles dão carona. E a nossa expressão mais portuguesa de todas — vou ali e já venho — é um colapso total. Eles ficam a olhar, perdidos entre o “ali” e o “já”. Dizer apenas: já volto.

Já tendo este conhecimento esperava que a comunicação fosse de maravilha. Ingénuo.

Já do lado de lá da imigração, precisava do ónibus para chegar São Paulo - a companhia aérea providenciava a passagem. Encontrei um homem com um crachá da companhia.

  • O ónibus da Azul?

  • Piso um.

Entro no elevador. Estou no piso menos um. Subo para o primeiro andar, nada de ónibus. Volto a perguntar e respondem-me

  • Piso menos um.

Regresso ao ponto de partida. A bilheteira estava atrás de mim exatamente no lugar onde estava antes.

  • Falta uma hora e meia para o ónibus partir. A viagem dura uma hora e quarenta.

Bom, tempo de comer alguma coisa.

  • Um croissant com fiambre e queijo.

A moça olhou-me de forma estranha. Uma pausa, e perguntou:

  • Aqui ou pra viagem?

Tinha acabado de fazer uma viagem, mas, quase de certeza, não era isso que ela queria saber. Só depois me lembrei “pra viagem” é take-away.

Enquanto esperava, observei a montra: sanduíches, mistos, coxas grandes e pequenas, folhados, folhadinhos e pastéis. Sem ovos não se fazem omeletes - e o Brasil sem salgadinhos, acabava. Vejo um croissant com tomate e queijo e penso, Eu nem gosto de fiambre.

O crítico residente nas catacumbas do meu ser resmungou:

  • Que imbecil! Cá ninguém diz fiambre.

E continuou:

  • Diz-se presunto ó portuga.
  • Ai é?! Então e como é que chamam presunto ao presunto?
  • Também não sei - devolveu
  • Ah, espertalhão! Vou investigar.

Semanas depois descobri.

  • Ah, esse é presunto de Parma - disse-me um amigo, referindo-se ao *Prosciutto di Parma
    • Mas espera, o nosso presunto é mais como o serrano de Espanha, ou o de Lamego ou o do Alentejo.

Meu amigo brasileiro olhou-me sem qualquer interesse e devolveu:

  • A gente chama presunto tipo parma.

E abandonei o assunto.

Por aqui, fiambre não existe. Talvez por isso a moça olhou-me de forma estranha.

Mas se ela não me entendeu, o que vou receber?

Uns minutos depois, tira o croissant do forno, coloca-o numa caixa para viagem e depois dentro de uma sacola.

  • Obrigado!

Abro a caixa e lá estava, não o croissant que tinha pedido, mas aquele que eu realmente queria: com tomate e queijo.

O universo entende o que dizemos… até quando falamos mal.

Saí do aeroporto e sentei-me na paragem do ónibus para São Paulo. Comi o croissant. Maravilhosa bola quente um pouco derretida de gordura, queijo, manteiga e açúcar. Não tinha internet, não havia Wi-Fi. Também não me apetecia um livro. Olhei à minha volta, que difícil esta vida de apenas ser e de nada fazer. Assim fiquei durante trinta minutos. Depois, não aguentei, e pedi um pouco de internet emprestada. Com dez reais, comprei internet para o celular e lá se foi o descanso. A hora que faltava para o ónibus chegar, passou em minutos.

São Paulo

Chegou, entrei, sentei-me, dormi, acordei no trânsito paulista. Desci do ónibus, e estava noutro aeroporto, desta vez o de Congonhas. Pedi um Uber para o meu Hotel - é um eufemismo chamar de Hotel ao “Hotel Dona Lú”, mas lá chegaremos. Destino, bairro de Santa Cecília.

Condutor do Uber de cara pesada, talvez cansado. É raro por aqui meterem conversa:

  • É São Paulo?

Ah, quer conversar! Também eu estava com esse apetite. O meu sotaque do brasil está aprimorado pois já me confundem com a fauna local, pensei.

  • Ah não, eu cá sou de Lisboa - tentei o meu melhor sotaque.

Motorista respondeu com silêncio. Perante a sua longa pausa, sem querer, chamo-lhe ignorante:

  • Lisboa, de Portugal.

Silêncio. Porra Raúl, és uma besta! Até que o motorista quebra o silêncio

  • Vai para o Centro de São Paulo?

Que idiota sou. Entendi tudo errado.

  • Sim, Santa Cecília.

Mais silêncio.

Cinco minutos antes do meu “Hotel”, assim que entramos no bairro de Santa Cecília, o motorista saca o celular do suporte do vidro e esconde-o por cima das pernas. Movimento estranho. De seguida, o tipo olha para trás e põe os olhos no meu celular e a sua expressão facial é assertiva. Guardo-o no bolso das calças. Este é o bairro que será meu por uns dias

Curiosamente, já o ano passado desta vez pelo Rio, também foi o raio do Galego que me sugeriu hospedar-me no bairro de Santa Teresa. Quando cheguei ao Rio de Janeiro, por volta das oito da noite, a Santa Teresa, fui recebido, à frente do meu hotel, por duas brigadas da polícia militar armados com Kalashinokv. Aquilo impactou-me. Pensava ter chegado a um bairro altamente perigoso, em plena guerrilha. Só que não. Afinal este tipo de brigadas é bastante comum estarem nas ruas. Brasil a ser Brasil, só eu é que não sabia.

Cheguei ao “Hotel” Dona Lú. Por fora o ar era sinistro, mas mais uma vez confiei no sacana do Galego. O interior era mais acolhedor. Longe de ser um hotel. Recepção modesta, ao lado um salão de unhas. Fiz o checkin, “Aqui estão as chaves, soube as escadas e vir à direita”. Subo as escadas, e toca um daqueles aparelhos elétricos ativados pelo movimento. O aparelho toca duas notas. Aquilo soou-me familiar. O meu quarto era logo ali, a poucos metros das escadas da entrada. Havia um corrupio de gente a entrar e a sair. Ouvi e voltei a ouvir essas duas notas várias vezes enquanto estava no quarto. Era estranho, ao som das notas as emoções arrancavam e do mesmo lugar desapareciam. E eu sem saber porquê. O cão de Pavlov iria entender-me perfeitamente.

Hotel Dona Lú, Santa Cecília

O quarto era pequeno mas tinha tudo o que precisava. Estava capaz de dormir doze horas naquela cama. Ela piscou-me um olho e eu tentado em deixar-me desmaiar no seu conforto. Mas, depois de uma viagem de 18 horas de avião, ónibus, taxi, não me poderia entregar assim tão facilmente. Larguei as mochilas, fui ao banheiro do quarto. Despedi-me do quarto e perguntei na recepção do “Hotel”

  • Algum lugar para jantar?
  • Tem vários logo ali na esquina
  • E é seguro?
  • Sim, mas não ande com o celular na mão.

Caminho até à esquina. Está frio. Uns 16 graus, e eu à espera desse calor do Brasil. Vejo um restaurante mesmo na esquina. Uma esplanada coberta, procurei uma mesa, puxei a cadeira e sentei-me. Rapidamente vem a moça entrega-me o cardápio e diz-me “Aqui fazemos melhor pizza do bairro”. Percorri o menu havia uma centena de opções. Por sanidade mental, pedi a pizza. E de repente, outro regalo. Um grupo, talvez de estudantes, quem sabe universitários, ou talvez do conservatório, sentados a apenas um metro da minha mesa, começaram a tocar. Havia três flautas transversais, dois clarinetes, um triângulo, um violão, maracas e algum que outro instrumento mais. Musica animada e acolhedora. Mais tarde disse-me o Galego que a música era o chorinho.

As pessoas da esplanada dividiam-se entre os que seguiam a música e outros viam um partido de futebol pela televisão. Chegou a pizza. Uns gritam golo e o chorinho continua. A pizza transbordava de queijo numa massa alta, grossa e fofa. Cada dentada era uma refeição.

Do lado de fora, um cruzamento com semáforos, os carros apitavam, as pessoas circulavam apressadas, os moradores de rua pediam esmola. Outros gritavam penálti, transeuntes paravam a ouvir a música, outros viam a repetição do golo, outros esticavam o braço e pediam um cigarro.

Dos muitos invisíveis que nada têm, aos que pouco têm e todos os dias vão à luta, aos que tudo têm e passam sem ser vistos atrás dos vidros fumados dos seus carros. E ainda assim, no Brasil faz-se muita música.

Quando a música acabou, os elementos da improvisada banda celebraram com breja (cerveja) e fatias de pizza. Retirei-me. Entrei no “Hotel”. Estendi-me na cama. E antes de poder contemplar o quarto que me iria dar guarida nos próximos dias, ouvi o motor de arranque do mini-frigorifico do quarto, misturado com aquelas duas notas a tocarem. Eram exatamente as mesmas duas primeiras notas de “No Surprises”, dos Radiohead. Sorri e adormeci.