“Exmo. Senhor Sub-Diretor”
Uma crónica sobre revisão, ofício e as pequenas autoridades que habitam a língua.
Durante três semanas, exceto os fins de semana, pendulei entre a Ericeira e Lisboa. Frequentei um curso de revisão de texto. Aprendiz de escritor que digo ser, pareceu-me necessário aprender o ofício de revisor.
A revisão, essa tarefa tão necessária e dolorosa no processo de escrever. Texto terminado, depois de várias leituras, correções, mais leituras, o texto, esse filho, nascido das entranhas, converte-se num tormento. Dá vontade de atirá-lo pela janela, publicar e esquecer que alguma vez existiu.
Quando o texto se dá por terminado, seja pela exaustão ou porque chegou a data marcada, há uma sensação de haver falhado. Aquele sonho da dança perfeita, no momento da entrega, ficou a largas milhas náuticas de distância. Reina a frustração, o ofício é posto em causa, e pairam nuvens de dúvida sobre o talento. Não há tempestade que dure para sempre, e esta não é exceção. Depois de os ventos amainarem, há espaço para me conformar, fazer as pazes com o texto, aceitar as suas falhas e limitações que, no fundo, são as minhas.
Essa angústia começa a mover os motores da vida, ao fim de uns dias, urge a vontade de voltar a tentar, de recomeçar, e escrever algo novo. Esse sentido de missão falhada é, na verdade o combustível para continuar a sentar-me e compor as palavras, e quem sabe, “tocar el cielo con las manos” Diego Armando Maradona.
Tal como um pai tem dificuldade em ver os defeitos do filho, os filhos têm dificuldade em encontrar as qualidades dos pais. Na escrita, na parentalidade, e também na ancestralidade, torna-se necessário deixar as palavras marinar, dar tempo e silêncio às relações, tal como as leguminosas, deixá-las de molho para facilitar a sua digestão. Lavar as vistas, esvaziar a mente e ganhar distância emocional.
Quando assolapados pela paixão, nesse momento em que o texto brota, e num ápice é terminado, tudo parece flores: os espinhos são confundidos com botões, os ruídos são melodias, tudo encaixa na perfeição. É urgente ir de férias - nós, as palavras, as relações - para, no reencontro, encontrarmos o amor e o discernimento para sentir onde a dança não flui, o que está fora do lugar, fora do compasso. Caminhar juntos, rever, remover, alterar, terminar e publicar. E depois, cada um segue o seu caminho.
Uma tarde por casa, recheada de pouca escrita veio-me a imagem de uma entrevista que vi há mais de vinte anos com o piloto italiano de motos, Valentino Rossi. Rossi tem profundos conhecimentos sobre a mecânica das motos que conduzia. Ele terá dito: “Como vou andar numa mota sem conhecer os seus adentros?” Essa era a ideia, não foram estas as palavras.
Também senti a necessidade de conhecer a mecânica que compõe as peças por detrás desta dança da escrita. As engrenagens, as pausas, as regras, as vírgulas, os adjetivos, os pronomes, os substantivos e os artigos. Procurei um curso de revisão de texto, encontrei vários, apenas um numa faculdade, na Faculdade de Letras. Começava dali a dois meses. Inscrevi-me. Não me seduzia a ideia, mas sabia que tinha de ir por esses caminhos pouco atraentes, porém necessários, da gramática, ortografia, dicionários e Acordo Ortográfico.
Durante a espera pelo início do curso, questionava-me sobre como seria esse labor de rever texto. Em branco ficava. Só me restava esperar.

E começou nos primeiros dias de janeiro. Regressei à Cidade Universitária, mais de vinte anos depois. No primeiro dia, uma segunda-feira chuvosa, cheguei com tempo e fui ao bar. Comi uma baguete de delícias do mar, que memórias! Todas as pequenas coisas me levaram a esses tempos de faculdade: o mesmo pão mole de baguete, a mesma maionese barat,; as delícias do mar que nunca ninguém encontrou, o frio no interior do bar, os empregados simpaticíssimos com os professores, “Boa tarde, professor, o que vai desejar hoje? E o senhor doutor?”, já com os estudantes “O que é que queres?”.
Depois da baguete, procurei uma mesa, trazia um livro para me fazer companhia na espera. Encontrei umas mesas perdidas num corredor, numa corrente de ar. Mesas velhas esforçando-se por parecer uma sala de trabalho, mas era apenas um frio e ventoso corredor com mesas e cadeiras tão antigas como oliveiras seculares. Sentei-me, subi o fecho do casaco até ao pescoço, apoiei os antebraços, e a mesa balançava ao som da pobreza daquele lugar. Sempre foi assim, mais de vinte anos depois ainda assim é.
Estudei a alguns metros daqui, informática no ISCTE. Na verdade, queria estudar Gestão mas o meu irmão disse-me, a dias de me candidatar, “há um curso onde todos os licenciados têm emprego e são bem pagos”, aceitei a sugestão e inscrevi-me em Informática. A promessa dada era o que procurava: arranjar trabalho, ganhar dinheiro, alugar um quarto no centro de Lisboa e deixar o ninho dos pais. Pouco me importava se era gestão, economia ou informática. Queria um bilhete para a liberdade. Cinco anos depois formei-me, arranjei um quarto - não em Lisboa - fui para Madrid. Uma semana depois, já tinha trabalho. Trabalhei por lá durante sete anos. Depois disso, nunca mais fui informático.
Durante os tempos de faculdade, o único objetivo era acabar o curso. Nunca permiti que a mente divagasse pelos gostos e aversões das disciplinas curriculares. Tampouco sobre a inutilidade de grande parte das matérias lecionadas. Muito menos me deixei seduzir pela ideia de experimentar outras licenciaturas, como tantos fizeram.
Mais difícil foi resistir aos encantos das festas, mulheres, dos finais de tarde, dos tempos loucos de faculdade. Muito pouco tive disso. Invejava essa loucura estudantil, a última reta da juventude, a última revolta antes do tenente-general Sr. mercado de trabalho. Mas a liberdade sobrepunha-se a todos os encantos. Como espada para esgrimir essas tentações tive, durante dois anos e meio, o meu fiel companheiro: um aparelho nos dentes. Há duas décadas, não era tão comum como hoje. Elas fugiam, assustavam-se com os andaimes que levava na boca. Talvez não fosse por isso; essa era a minha percepção.
Por aqueles tempos, quando caminhava pela Cidade Universitária, observava as faculdades de Psicologia e de Letras e repetia as mesmas palavras que os meus pais várias vezes me disseram: a faculdade dos desempregados. Eles tinham um medo imenso de que, depois dos estudos, eu não conseguisse emprego, de que enveredasse por uma dessas licenciaturas sem aparentes saídas profissionais. Pregaram-me o medo, e eu tomei-o como meu: os de Letras e os psicólogos não tinham onde cair mortos.
Se caísse na desempregabilidade, teria de prolongar a estadia na casa deles, adiando o sonho visceral de liberdade. Assim, tomei a sua crença e prometi a mim mesmo nunca me apaixonar por tais desígnios. Letras, Artes, Ciências Humanas, Ciências Sociais… delas fugia para não correr o risco de me apaixonar pela profissão ou pela mulher errada.
Já era antiga essa decisão inconsciente de declarar como incapaz, inclusive de temerário, o coração, pois este poderia levar-me por caminhos de grandes amarguras. Depois de passado o atestado de incompetência à minha pessoa, seguia e repetia a voz dos meus pais em todas as ações que fazia.
Hoje, as Letras e a Psique, são os dois temas que mais me fascinam. Foram precisos vinte anos para me dar conta disso. Soa a tempo perdido? Nada disso. Foi o caminho que precisei de percorrer.
Hoje, mais de vinte anos depois, entro pela porta principal da Faculdade dos Desempregados e aguardo, nesta corrente de ar, pela primeira aula do curso de revisão de texto.
No dia seguinte, voltei para a segunda aula. Desta vez, comi um palmier recheado, ao sabor das saudades desses tempos de faculdade. No terceiro dia, uma tosta mista, exatamente igual às que comi há vinte e poucos anos. No dia seguinte, um folhado de salsicha.
Sexta-feira, depois da aula, a caminho do carro, fiz um desvio. Entrei e, num clima de festa, rodeado de estudantes, excitação hormonal, aparelhos nos dentes e borbulhas, jantei no Burger King da Cidade Universitária. De repente, tinha dezoito anos outra vez. Saquei o portátil da mochila, desviei a bandeja e, ao sabor das batatas fritas e da barulheira das conversas juvenis, escrevi durante horas - pareceram dois fósforos. Redigi uma carta a um amigo, conheci-o no dia das inscrições da faculdade, o primeiro dia desses cinco longos anos de curso. Enviei-a por e-mail e regressei à Ericeira. Foi uma boa sexta-feira. Há uma calma em repousar a cabeça na almofada da cama depois de horas a escrever as memórias que pedem para ser contadas. Sensação de trabalho feito, como se alguém me desse esse labor: escreve isto! Está feito. Já posso dormir.
O trabalho do revisor, ao contrário do que pensava, não se trata de riscar e reescrever ao nosso gosto e feitio. Nada disso. É um ofício que se faz com pinças.
Recebemos a matéria-prima, que plde ser o texto, o panfleto, o guião, o livro de ficção-científica, o manual escolar, o conto literário, a frase que vai no cartaz político no Marquês de Pombal, as regras de um jogo de tabuleiro, as instruções de um frigorífico ou aquela frase para uma tatuagem. A regra é sempre a mesma: respeitar os estilos e as vontades do autor, assinalar gralhas ortográficas, gramaticais, verificar factos, datas e nomes. Depois, entramos no campo das sugestões que, no nosso subjectivo entender, podem trazer claridade, harmonia e remover o ruído da melodia que nos cantam as palavras. Trata-se de entender o autor, o seu estilo, a sua forma de se expressar, e a partir daí, fazer sugestões. É, portanto um trabalho, minucioso, sugestivo e nunca impositivo Nas várias técnicas disponíveis ao revisor, em nenhuma delas se modifica a matéria-prima: deixam-se emendas e comentários. Se o autor não aceitar nenhuma delas, o texto permanece tal como saiu das suas mãos. No final, é o nome do autor que figura no texto.
Regressei na semana seguinte. Um frio imenso, os radiadores desligados, janelas abertas. Fujo da comida do bar, tento ler, o frio consome-me, fico a ver os estudantes a passarem. Durante as aulas recordei a sabedoria dos mestres “Quando um mestre fala o aluno fica em silêncio; só assim pode receber o conhecimento”. Aqui não era exceção. Cada palavra que a professora dizia era o sumo dos seus anos e anos de trabalho espremido. Falava dos conhecimentos técnicos e partilhava histórias da sua jornada como revisora.
A oralidade como forma de transmitir o conhecimento, traz um relaxamento à mente: o conhecimento entra e novos entendimentos acontecem. As velhas e viciadas formas de pensar suspendem-se quando a mente relaxa, permitindo a entrada de novos conhecimentos. A professora escolhia com prumo e gosto cada palavra dita. Fosse qual fosse o assunto, até nos mais aborrecidos, soava a melodia. Por várias vezes as suas palavras inspiraram-me.
O curso foi decorrendo, o frio também. Noventa por cento dos alunos de casaco vestido na sala de aula, alguns de cachecol. A aula terminava e regressava à Ericeira. Na última semana o interior da sala fervia: o aquecimento estava no máximo, não havia forma de o reduzir. Sabia a glória depois do frio das semanas anteriores. Foi o calor da despedida. Depois de três semanas, o curso terminou. Surgiu a oportunidade de ir trabalhar para uma empresa, num estágio para ter contacto com o mercado de trabalho. Aceitei.
A empresa tem 70 empregados. Recentemente, começaram a celebrar contratos de prestação de serviços com as autarquias e pretendiam melhorar a qualidade da comunicação para evitar erros gramaticais e ortográficos nos contactos com os presidentes de câmara deste país. Procuravam revisores que verificassem e-mails, conteúdos do website e outras formas de comunicação. Um gesto nobre, o de querer elevar a qualidade da escrita, mas não queriam gastar muito dinheiro. Conseguiram, portanto, um estagiário: eu, Raúl Fonseca, revisor de texto recém-formado há cinco dias.
Iniciei o trabalho, “não vale a pena vir até cá, nós enviamos todo o material por email”. Parecia que me tinham medo. Talvez imaginassem o revisor como um justiceiro da gramática. Caminhava de forma sórdida e pesada, sessenta e três anos, régua de madeira na mão direita e o tacão dos sapatos a marcar o paço no chão de tacos de madeira, entre as carteiras, Toc - silêncio - Toc - silêncio - Toc. Todos tremíamos por dentro. Escolhia uma vítima, pegava no seu caderno e por cada erro, PA! Uma reguada! Assim era a minha professora da primária. Abri o e-mail e descarreguei o ficheiro ZIP em anexo.
Havia alguns panfletos, relatórios de contas e muitos e-mails. Encontrei gralhas, erros gramaticais, palavras em itálico que deviam estar em texto redondo e palavras com letra maiúscula que deviam estar em caixa baixa, isto é, em letra minúscula.
Encontrei em muitos e-mails as seguintes frases, “Exmo. Senhor Sub-Director” ou “Exmo. Senhor Diretor” ou “Exmo Senhor Presidente da Câmara Municipal de …”. Ora, “Senhor” com letra maiúscula está reservado apenas para aquele em quem alguns acreditam estar no céu, que, apesar de parecer, não é o caso de nenhum presidente da câmara deste país. Os cargos, com o novo Acordo Ortográfico de 1990, deixaram de ser em caixa alta, ou seja, em letra maiúscula. A forma correta seria “Ex.mo senhor subdiretor”, “Ex.mo senhor diretor”, “Ex.mo senhor presidente da Câmara Municipal de …”. Procurei, verifiquei, fiz mais pesquisas e confirmei. Esta seria a forma correta.
Quando notifiquei a empresa de que tinha terminado a tarefa, acharam por bem realizar uma reunião para que eu apresentasse o trabalho feito e propusesse as minhas sugestões aos seus colaboradores.
Eu sabia que não ia ser fácil, mas tive de aceitar. Lá fui eu numa quarta-feira, dia chuvoso, às dez horas, nervoso, para os escritórios da empresa em Lisboa.
Numa sala com vinte cinco pessoas, estavam trabalhadores do departamento de marketing, alguns administrativos, um diretor e um subdiretor. Comecei pelo assunto mais fácil: as vírgulas.
As vírgulas não são simples, não são óbvias e, muito menos, rígidas. É um tema bastante delicado para autores literários, até porque não há uma fórmula correta. Existem vírgulas corretas e vírgulas incorretas e, depois, há vírgulas que podem ir a gosto de cada um, sendo, portanto, necessário um diálogo com os autores.
Mas, quando o texto é informativo, sem nuances artísticas, as vírgulas são mais óbvias de corrigir. Também não são fáceis de explicar, pois existem distintas situações, e as pessoas tendem a já ter bastantes vícios a virgular. No entanto, eu sabia que este era o tema mais fácil de explicar nesta apresentação, porque já sabia o que vinha depois.
“Olá Joana!” erro comum nos e-mails, a forma correta é “Olá**,** Joana!”. Tem sempre de levar vírgula antes do vocativo, que é “Joana”, para ser isolado. Depois os “bem-vindo” que leva sempre hífen. E também os casos de “está melhor pintado”, quando deveria ser “está mais bem pintado”. Ou, “isto foi melhor explicado”, quando a forma correta é “isto foi mais bem explicado”.
“O primeiro milho é para os pardais”, dizem. Deixei para o final o mais difícil: “ Sub-Director” e “Diretor”. Com ambos na sala, este não seria um tema fácil. Agora que já tinha relaxado, voltei a ficar nervoso. Suava das mãos, circulava o assunto, andava às voltas, fugindo do problema, até que finalmente disse o que tinha de ser dito:
- “Diretor”, com o novo acordo, escreve-se com letra minúscula, assim como todos os cargos. Até, vejam lá - numa tentativa de baixar a tensão no ar - a sua santidade, o chefe da Igreja Católica, também se escreve com letra minúscula: “papa”. Parecer-vos-á estranhíssimo, como um cargo tão elevado, o da sua santidade, se escreve com lletra minúscula. Mas, de facto, o Acordo Ortográfico é claro: todos os cargos se escrevem com caixa baixa, isto é, letra minúscula. E, portanto, “Sub-Director” passa a “subdiretor”, tudo em minúscula e sem hífen. O mesmo se aplica a “senhor presidente”, que também deve ser escrito com minúscula. Também “presidente da Câmara Municipal de Lisboa”, deve ser escrito com caixa baixa… peço desculpa, hábitos do trabalho, com letra minúscula.
A resposta saiu disparada mais rápido que uma bala:
-
Mas isso é impossível! Isso, de todo, não pode ser! - disse o subdiretor, ofendido, como quem apontava um erro gravíssimo - Os cargos têm de ser escritos com letra maiúscula. É, acima de tudo, uma questão de respeito! Há mais de vinte anos que se escrevem assim. Então, agora vamos escrever ao senhor presidente da Câmara de Arganil e tratá-lo com letra minúscula? Mas, ó senhor revisor, onde é que isso já se viu?
-
Pois, entendo a sua questão. É deveras uma mudança, mas isto não foi uma decisão minha.
-
Então e “subdiretor”, como ficaria na sua proposta? - perguntou o subdiretor.
-
Atenção, não é uma proposta minha. Este acordo foi assinado em Outubro de 1990 por representantes de oito países: Brasil, Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Portugal.
-
Pronto, nesse acordo horrendo de que fala… - insistiu o subdiretor.
-
Segundo as regras do novo acordo, “subdiretor” é sem hífen e em letras minúsculas.
-
Não se pode colocar subdiretor com “D” maiúsculo?
-
Na eventualidade de manterem todos os cargos com letras maiúsculas, o que eu não aconselho mas se for essa a vossa vontade, seria “Subdiretor”, com “S”em letra maiúscula e “d” em minúscula.
-
Ah! Mas que raio! Isso então é que não pode mesmo ser! - protestou o subdiretor.
Na expressão do subdiretor via-se uma derrota com o uso do novo Acordo Ortográfico. O seu posto, graficamente, na forma escrita, ficava mais perto de “sub” do que de “diretor”.
A reunião terminou, e estava claro que não tinham ficado muito agradados com a minha intervenção. Senti que deixei para o final a pior piada: não só não se riram, como ficaram ofendidos.
Terminada a apresentação, saíram um por um, quase todos incomodados. Os colaboradores olhavam-me com desdém, ao tipo que veio fazer queixinhas dos seus erros aos chefes, de miudezas que se não fossem enunciadas, ninguém se daria conta delas. Há mais de dez anos que escreviam assim e não veio nenhum mal ao mundo. Mas, claro, tinha de vir o raio do revisor mesquinho trazer à luz a todos esses acentos, hífens, vírgulas e essas porcarias que apenas servem para arreliar a vida.
O diretor e o subdiretor saíram com o sentimento de que os estava a despromover dos seus cargos. Eles, que seguramente tiveram a ideia de contratar-me e organizar esta reunião com mais de vinte pessoas e um catering manhoso: gasosas de marca branca, mini pães de leite de pacote e mini salsichas espetadas em palitos. Foram os primeiros a sair com um rápido e carrancudo “Boa tarde!”. Os restantes também saíram incomodados. Apenas uma pessoa me fez uma pergunta e agradeceu o meu contributo no final, de forma reservada. Seguramente para evitar que mais tarde fosse chacinado pelos colégios no refeitório.
Não esperava outro desfecho, mas de forma alguma me sentia satisfeito. Ossos do ofício, pensei. Arrumei as coisas, passei pela mesa pálida do catering e consolei-me com três mini-salsichas. Eram terríveis.
Uns dias depois, enviei, tal como tínhamos estipulado, todas as sugestões num relatório para o subdiretor. E assim se deu por terminado o meu estágio nesta empresa.
Recebi um email a agradecer o meu trabalho, e desta forma assinado.
