João Certinho
Um retrato de João, figura certinha e deslocada, entre aparência, desconforto e observação.
Estava no cowork, na minha secretária, quando entra um tipo que teria trinta mas que aparentava ter mais de quarenta anos. Boa tarde, sou o João. Com os olhos postos no chão, calçava uns moccasins, calças beijes passadas a ferro e vincadas; camisa às riscas em azul marinho e um pulôver castanho escuro. Saído de uma peça dos Maias, este tipo tinha-se esquecido de passar pelo camarim e deixar o figurino.

Caminhou pela sala sempre com o olhar arrastando-se pelo chão, enquanto se dirigia para a mesa que lhe tinha sido atribuída. Sentou-se na cadeira e ajeitou o seu balde de lixo.
Deixei-o recolher-se no seu canto, abstive-me de fazer perguntas. Melhor que se acomode. O meu canto estava adornado de plantas, livros, pilhas de folhas, caixas vazias de encomendas e uma taça cheia de café.
Os dias foram passando e eu seguia na luta com as palavras que teimavam em não sair. Fui-me acostumando a este senhor que todos os dias chegava vestido como no primeiro dia: a peça dos Maias não se faz em dois dias.
Mas todos os dias sucedia algo que me desconcertava. Sempre que o senhor dava ou retribuía um cumprimento, nunca dirigia o olhar. Umas vezes mantinha-se escondido atrás do computador, outras vezes não tirava os olhos do telefone ou da janela. Talvez fosse só às vezes. Nada disso. O tipo nunca me cumprimentava com o olhar. Na minha vida creio nunca ter assistido a tal coisa.
Talvez fosse uma mesquinhice. Procedi então a um pequeno estudo durante os três dias que se seguiram. No primeiro dia, entrei na mercearia e digo “Bom-dia”. Uma senhora deixou os frascos, deu meia-volta, olhou-me nos olhos e devolveu o cumprimento e regressou às compotas. No dia seguinte, fui à oficina. Atirei “Boa-tarde”. O mecânico deslizou debaixo de um carro, olhou-me nos olhos e devolveu “Boa-tarde”. No dia seguinte, ao final do dia, vou a caminhar e ouço “Boa-tarde”! Dei meia-volta, olhei-lhe nos olhos e respondi, Boa-tarde Ignácio!
Voltei ao João.
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Bom-dia
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Bom-dia - sem olhar
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Boa-tarde
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Boa-tarde - sem olhar
Já não era curiosidade, estava a ficar danado.
Final de tarde estava a fechar um texto para uma revista, abordei o tipo:
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Então o senhor a que se dedica?
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Por favor não me trate por senhor, trate-me por João. - cruzou o olhar, fez uma pausa - Organizo eventos empresariais, convenções ou … e também eventos corporativos - terminou olhando para o piso.
Tento pescar-lhe o olhar. Os seus olhos fogem como tainhas. E prosseguiu.
- Antes trabalhava na câmara municipal, era secretário-adjunto do vereador. Mas a burocracia inerente a este tipo de instituições limitava-me as ideias. Não tinha liberdade para os meus projetos. Foi assim que um dia decidi lançar a minha própria empresa de eventos.
Mais uma vez deixei que o silêncio lhe desse caminho para continuar.
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E os eventos na verdade sempre foram a minha paixão. Estar com pessoas, conversas, juntar pessoas e criar experiências inesquecíveis.
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Prazer, sou o Raúl.
Dois meses depois, deixou o coworking. O sol batia nas janelas, estava sozinho na sala. Olhei para a sua mesa vazia e o balde de lixo sem o saco de plástico no seu interior, e escrevi isto:
João Certinho
Roupas engomadas Calças vincadas Camisolas de malha Camisas às riscas de cores Sempre claras
Cabelo curto meticulosamente penteado Sapatos sempre engraxados Barba aparada com a gilete Todos os dias a mesma toalete
Para o lanche a tradição Mantém a função Crackers de água e sal Quatro ou cinco no máximo Bebe com um cházinho E às seis diz-me, chauzinho