Glória e Dor

Nos bastidores da escassez

Um retrato de Raúl Fonseca, da fotografia analógica e dos bastidores onde a escassez também cria mundo.

Conheci o Raúl Fonseca há uns anos. A primeira vez que conversámos o tipo era informático e vivia em Espanha. Isso foi há mais de 15 anos, recordo-me pouco da conversa. Lembro-me que andava com uma máquina fotográfica analógica ao peito. Uma máquina Nikon que lhe tinha sido oferecida pelo seu pai. E agora recordo-me, ele contava que essa máquina tinha sido comprada há mais de 30 anos no Japão. E agora vem-me também à memória que o tipo andava metido numa casa ocupa em Madrid, e frequentava as assembleias onde se tomavam as decisões de gestão do espaço. Nada disso por escolha, ele estava a fazer um curso gratuito de revelação de fotografia a preto e branco e em contrapartida, era pedido aos seus participantes que, pelo menos um, se envolvesse com a gestão dessa casa ocupa.

Nos bastidores da escassez

Por esses tempos cruzei-me com ele algumas vezes em Lisboa. Raúl, era um verdadeiro emigrante: queixava-se da pacatez e dos hábitos retrógrados de Portugal e ao mesmo tempo elogiava a comida pela sua qualidade e pelo pouco que custava “isto tudo foi menos que vinte euros”. Atirava sempre com a mesma frase perante as perguntas dos conterrâneos que nunca tinham emigrado, “Para trabalhar esquece, agora para passar férias Portugal é o melhor lugar do mundo”. E pagava frequentemente com notas de 50 euros. Hoje em dia as notas de 50 abundam, mas há 20 anos, em Portugal, nem as caixas multibanco atiravam tais notas, “ah mas em Espanha as ATM só dão notas de 20 ou 50”, em Portugal eram mais frequentes as de 5 e 10 euros.

Depois perdi-lhe o rasto. Dizem que andou a viajar. Até que uns anos depois cruzei-me com ele pelas ruas da Mouraria. Tinha-se metido no marketing digital para poder viajar, palavras dele. Explicou-me mas não entendi bem o que fazia. Promovia uns produtos americanos e tinha de escrever sobre coisas que ele nunca tinha visto. Estava menos emigrante, mais pés no chão, tecia algumas raízes, mais conterrâneo.

Voltei a encontrá-lo um ano depois. Ainda por Lisboa, já não recordo bem, creio que vivia na Graça. Entendi que o marketing já não estava a funcionar. As roupas já tinham cortes mais comuns, menos ajustadas, o toque do espesso algodão tinha desaparecido, já não tinha aquele aspeto de alguém endinheirado. Eram umas dez da noite, estava encharcado de vinho que partilhava com um amigo. Bebi um copo com eles e, para mim, estava claro que a maré para ele estava a mudar. Algum planeta está a mudar-lhe o mapa, dizia o seu amigo pintor que o acompanhava num jarro de tinto da casa. A última imagem que fiquei desse encontro: o tipo agarrado a uma caneta bic bastante usada com um sorriso desgovernado a escrever no reverso de um flyer uma poesia. Despedi-me, ele nem deu por isso.

Há um ano atrás voltei a encontrá-lo. Andava um pouco perdido por uma Lisboa que já ninguém conhece. Era de dia, umas quatro da tarde, o tipo andava com uns calções já bastante gastos, e uns ténis onde a cor já tinha sido engolida pelo sol. Barba de um mês, ou até mais, quando lhe perguntei atirou-me com alguma segurança, pouca na verdade, era escritor e antes que eu fizesse a próxima pergunta disparou a resposta a queima-roupa, escritor mas sem livro escrito. Escrevia umas coisas, apressou-se a dizer, ao início algumas revistas mas as revistas foram-se. Tudo isto ele contava sem eu perguntar nada. Informático quando o destino assim lhe pedia e até animador de eventos quando surgia uns biscates.

Contou-me que as coisas financeiramente não estavam como nos tempos de ouro da informática. Na verdade, o tipo sempre foi um agarrado ao dinheiro mas com alguma frequência, fosse pelo vinho ou pelo convívio, ou quando se juntavam os dois, esquecia-se da sua condição de forreta e deixava as moedas escaparem-lhe pelos dedos das mãos. Hoje, quando o encontro aqui pela feira da ladra, estava claro que as divisas deixaram de fluir, a maré já tinha mudado.

O tipo dizia ser poupado, na incerteza do futuro poupa-se no presente, dizia-me. Mas, no fundo, ele espremia-se o máximo que podia, para não gastar além do necessário. Nas idas ao supermercado, contava-me ele, desapegava-se das vontades, dos desejos da gula, quando os preços eram mais elevados do que tinha imaginado. Um mês mais tarde, num supermercado da Mouraria, encontrei-o com duas garrafas de azeite na mão, quando lhe dei as boas tardes, explicou-me a diferença dos preços. De seguida contou-me que nas promoções os detergentes da roupa chegavam a descontos de 70%. Aquela conversa de escassez aborrecia-me, tentei mudar o rumo da conversa e perguntei-lhe se tem estado com a malta. Deixei-me desses frequentes jantares de tascas e restaurantes à sexta-feira, e remata: deixei-me dessas luxúrias.

Dizia que se tinha deixado dos secretos de porco preto das tascas, das sandes caseiras de salmão fumado, dos jantares românticos de sushi e das loucuras ao domingo de vinho tinto e vazia argentina. Afirmava com convicção que, como quem despe um casaco, tinha largado os caprichos alimentícios, não apenas para poupar dinheiro mas para deixar de carregar com todos esses vícios.

Aquilo a mim parecia-me tudo conversa de vendedor de banha da cobra. Discurso de nutricionista que ao fim de semana se entope de hambúrguer, batatas fritas e pipocas mas diz ser apenas um capricho de vez em quando. Ou daqueles iluminados espirituais que estão livres de tudo mas são incapazes de deixar os cigarros e os temas de conversa é sempre sobre criticar os outros.

Mas não ficou por aí. O tipo, Raúl Fonseca, argumentou que esses prazeres da comida e bebida, quando satisfeitos, duram minutos até outro prazer da mesma índole surgir para ser perseguido. Continuou no seu monólogo, que todos eles eram uma perda de tempo, não eram mais do que comer e beber para tapar o imenso vazio e afogar as frustrações. Aquilo que todos dizem como “é apenas um capricho”, eram, na verdade, formas de lidar e aguentar a vida. Aqui comecei a perder a paciência. Ele deve ter notado. Disse-me que não se tinha proibido de tais prazeres, apenas que os tentava evitar. Exatamente como eu suspeitava e já vos tinha avisado: o tipo espremia-se com uma força tremenda. A sua frugalidade era sustentada por um imenso esforço, tal como o alcoólico evita o bar, Raúl fugia da vida para não cair em tentação. Mas tudo neste universo se compõe por dois movimentos, contração e expansão, e Raúl estava em contração e a ponto de rebentar.

E esse dia chegou, o tipo relaxou as nádegas e a carteira aliviou. Num ato de loucura, às horas que estas se cometem, depois da meia-noite, já bem perto das duas da manhã, comprou um aspirador. Mas não foi um aspirador desses com saco e em forma de mochila, com um fio extensível de ligar à tomada que fazem uma tremenda barulheira. Não foi um desses aspiradores que todas as famílias têm e arrastam pelo soalho e pelos tapetes das suas casas. Uns autênticos tijolos com trela, que ninguém sabe, e poucos acreditam que realmente aspiram alguma coisa. A tarefa de limpar, já por si aborrecida, torna-se desmoralizante, pois sabe Deus o que raio esses aspiradores aspiram.

Nada disso. O tipo andou às tantas da noite a ver os aspiradores da melhor marca do mundo. O tipo empenhou-se a comprar o Ferrari dos aspiradores, um modelo topo de gama. Investigou durante duas horas e depois decidiu em menos de uma hora, um recorde pessoal para Raúl Fonseca, ou como lhe chamavam alguns, Raúl Forreta. Claro que, no momento da compra, ainda vasculhou por essas páginas obscuras, por vales de desconto. Foi mais meia hora nisso, e no final lá conseguiu um desconto de vinte euros, que parece expressivo não fosse o aspirador custar quatrocentos e cinquenta euros.

O homem que escolhia azeites por diferenças de cinquenta cêntimos tinha acabado de comprar um aspirador de quatrocentos e trinta euros a pilhas. No final foi um processo de três horas. Claro que, depois de introduzir os dados do cartão de crédito, foi um minuto e, antes de dar por isso, a compra estava feita. Estava ele incrédulo do sucedido. Tinha acabado de comprar um aspirador, sem cabo, sem saco e a bateria. Ele já tinha um aspirador como todas as famílias, para que raio precisava ele daquilo? Mas agora era tarde para tais indecisões. Eram duas e meia da manhã e já lhe tinham ido ao cartão de crédito. O Ferrari a vácuo chegaria em três dias úteis.

A maré tinha agora mudado para Raúl. No dia seguinte, teve um furo no pneu da frente. Quando me relatou o sucedido, o tipo estava bastante tranquilo: furos acontecem todos os dias, será despesa pouca, metem-lhe um remendo e em quinze minutos já seguirei viagem, disse-me ao telefone. Quase sempre é assim, respondi-lhe. Raúl já se despediu intrigado. No dia seguinte ligou-me. Contou-me que, quando o mecânico viu o estado do pneu, atirou-lhe a cara de más notícias, e não foi preciso dizer nada, ele percebeu logo - precisava de dois pneus novos à frente. Afinal, a despesa não seria coisa pouca, mas contava que não se descontrolasse além dos cento e oitenta euros, portanto menos de metade do aspirador topo de gama. Além disso, mas não desenvolveu mais do que isso, a caminho do mecânico, ainda a rolar com o pneu sobresselente, acendeu-lhe uma luz no painel. Isto era final de julho, vésperas de um agosto com viagens de muitos quilómetros por fazer, e a luz da mudança de óleo não poderia ser adiada para o mês seguinte. Depois disso, não disse mais nada.

Nos bastidores da escassez

Na oficina só tinham vaga para tratar do urgente.

  • Dois pneus novos instalados. Volte depois de amanhã e tratamos do óleo.

– Diga-me uma coisa, isso do óleo é coisa para quanto?

– Ah pouco, uns cento e oitenta euros.

Ou seja, mais dois pneus, pensou Raúl. Ah, sendo assim, e visto que a quantia não era exorbitante, atirou confiante:

– Então faça também uma limpeza por dentro e por fora.

  • Não sei se nos dará vagar, mas se for possível conte com isso.

Raúl deixou a oficina com confiança.

No dia seguinte, finalmente chegou. Uma caixa de cartão e lá dentro outra caixa de cartão que, por sua vez, tinha várias caixas de cartão dentro. Cada uma feita à medida de cada peça do aspirador. Então é assim que se embala um Ferrari, pensou Raúl. Montou as peças, faziam um clic fora de série, bons plásticos seriam. Seguramente não teria bateria, nada disso, carregou no botão e aquilo aspirava e fazia um barulho do além. Tal como um Ferrari não se limita a essa função básica de um carro de se mover de um lugar para o outro. Nada disso. Faz um barulho distinto de todos os outros carros, que não tem nenhuma outra função além de inchar o peito daquele que o conduz.

Com o aspirador na mão direita, foi à cozinha à procura de migalhas. Então, mas quando um tipo precisa de uma sujidade é que não a encontra? O chão estava limpíssimo. Há dois dias a empregada tinha estado por casa. Encontrou, a custo, umas poucas migalhas, carregou no botão e aquilo aspirava mesmo. Mas o barulho é que era impressionante. E, pouco depois de uns segundos, no máximo um minuto, estava visto. Quando lhe perguntei, por curiosidade, se valeu os quatrocentos e muitos euros, respondeu-me:

– Sim! Bom, eu acho que sim. Quer dizer, eu sei lá. Olha, pela minha sanidade, vou dizer-te que sim, valeu muito a pena.

Despediu-se e desligou o telefone.

No dia seguinte, pelas dez da manhã, antes de se sentar com o intuito de escrever, Raúl repetiu o ritual de todos os dias. Podem tirar-lhe a água, a televisão, até lhe podem tirar a internet, mas o café é como secar o lago a um sapo, não façam isso ao tipo. E lá foi ele, ligou a máquina expresso, foi buscar os grãos de café de um lote especial da Etiópia. Usou o doseador para retirar a quantidade exata de café. A máquina de café já estava na temperatura certa, despejou os grãos para o moinho, carregou no botão e fez-se um silêncio. O moinho de café elétrico tinha perecido. Hora da morte: 10:08. Raúl não acreditava, mas era verdade. Correu para o computador, fez uma pesquisa: 287 opções de moinhos de café elétricos disponíveis.

Desta vez dedicou apenas uma hora. Pela primeira vez esqueceu as funcionalidades, olhou para o mais cómodo e, num impulso, escolheu um moinho elétrico. Atenção, havia melhores e mais baratos, a sua escolha não era a mais lógica, mas Raúl seguiu aquilo que a mim me contou como a sua intuição, que não era a voz da sua carteira, nem a voz de um chefe que lhe criticava os pensamentos. Foi assim que me contou, era a sua voz interior e ouviu-a, só assim conseguiu, em menos de uma hora, comprar o dito cujo moinho. Duzentos euros, mais um par de pneus. Estimavam entregar em cinco dias.

O dia avançava rápido, três da tarde, e tinha de ir buscar o carro à oficina. Tinha um quilómetro para caminhar debaixo de um sol tórrido das três da tarde de um dia de verão. Aproveitou o silêncio e a brisa quente do calor que subia do alcatrão para fazer as pazes com o defunto moinho de café e a nova despesa que tinha acabado de fazer.

Ora, o defunto moinho tinha sido usado por ele durante quatro anos. Milhares de grãos de café passaram pelas suas lâminas. O moinho tinha sido oferecido pelo seu pai, que o comprou há cerca de quarenta anos. O seu pai usou-o durante alguns anos e depois cansou-se, perdeu a paciência de moer grão, apesar de ainda recordar com alegria aquele cheirinho de café recém-moído. Seu pai converteu-se para, na época, o moderno café moído. E, quarenta anos depois, Raúl, num desses sábados de almoço de família em casa dos pais, abriu um daqueles armários da cozinha que nunca veem a luz do dia e encontrou, fechado na sua caixa original, o reformado moinho elétrico. Raúl levou-o para casa, deixou de comprar café moído e converteu-se ao café em grão e, desde então, é raro o dia que não o punha a trabalhar.

Hoje morreu sem dar aviso. Sem aviso costumam ser as mortes precoces, mas este já tinha feito a sua parte, sem queixas nem barulhos estranhos e com dignidade. E hoje, morreu. Mais não se lhe podia pedir.

Ora, portanto, na cabeça do tipo, e depois de muitas contas feitas, a sentença tinha sido deliberada: gastar duzentos euros num novo moinho de café era mais do que justificado, era necessário e assim honrava o defunto moinho. Agora, se comprou o moinho certo, será que tinha exagerado num modelo demasiado bom? Será que um mais barato não seria suficiente? Na verdade, e não vos tinha contado esta parte, esta compra que pareceu de impulso assemelhava-se a qualquer boa comédia de improviso – parece que tudo acontece naturalmente, mas na verdade são muitas horas de trabalho. Este moinho já andava a ser observado por Raúl há vários anos. Portanto, a sua escolha, que hoje parecia de impulso, quase de improviso, estava há muito determinada. Ainda assim, as questões sobre a sua escolha engalfinhavam-se na sua cabeça, mas para encontrar as respostas, precisava de caminhar mais quilómetros e Raúl já estava a chegar à oficina.

Antes de entrar, já estava em paz com a nova despesa do moinho. Só lhe restava esperar uma semana e outro Ferrari chegaria a sua casa. Assunto resolvido, gasto justificado, o tesoureiro satisfeito, a culpa relaxou e tirou férias, mas apenas por alguns minutos.

Entrou, como poucos entram numa oficina de carros, com um sorriso chapado na cara. Nós não somos parvos e muito menos ingénuos, todos sabemos que uma oficina não é uma gelataria; de lá nunca se viu um homem sair feliz. E a este tipo faltava-lhe pouco para aprender. O sorriso durou-lhe menos que um copo de vinho numa taberna.

– Venho buscar o meu carro.

– Ora, portanto, temos aqui a sua fatura: a mudança de óleo e os filtros, tal como já tínhamos falado; as pastilhas de travão, que não o podia deixar sair com o carro com as pastilhas naquele estado miserável; depois a bateria, que já deitava líquido pelas pontas; e está tudo. É um pouco mais do esperado: são quinhentos e sessenta euros.

A visão ficou turva e Raúl engoliu em seco.

– Mas tinha-me falado em cento e oitenta euros?

– Pois, mas estas coisas tinham mesmo de ser.

Aquilo era mais do que o aspirador. Ora, os pneus da frente, o moinho de café, o aspirador da NASA… mas porquê um aspirador da NASA? Porquê um moinho sideral? Agora o óleo e mais não sei quê… Mas o que se passa, Raúl, perdeste a cabeça? O silêncio, o olhar do mecânico, a senhora que esperava na fila para ser atendida, a visão ainda turva. Sem saber o que fazer, chutou a bola para canto.

– Mas… não vejo aqui, por isso deduzo que não vos tenha dado tempo para fazerem a limpeza, nem a de dentro nem a de fora?

– Ah, fizemos sim, mas esqueci-me foi de incluir na fatura. São mais 40 euros, portanto fica tudo em 600 euros.

E, para sobremesa, uma chapada.

Raúl passou o cartão e agora sim, saiu da oficina como quase todos nós, sem qualquer sorriso. O raio do carro é mais uma boca que se senta à mesa lá de casa.

Entrou no carro e pensou nos pneus da frente, no óleo, no filtro, nas pastilhas do travão, na bateria, no aspirador, no moinho por chegar e em toda essa cangalhada. A única coisa verdadeiramente perceptível para ele era o limpo que estava o habitáculo e uma espécie de cheiro a novo. Conduziu uns metros e parou ao lado da primeira cafeteria de estrada, e pediu aquilo que hoje ainda não tinha conseguido: um expresso.