“O mundo não é ruim, só está mal frequentado! “
Uma crónica no Rio de Janeiro a partir de Luís Fernando Veríssimo e da estranha companhia do mundo.
A afirmação é de Luís Fernando Veríssimo, famoso escritor brasileiro. Conheci o seu trabalho de forma inesperada mas longe de ser uma coincidência. Por aqueles tempos estava no Rio de Janeiro, pelo bairro da Lapa, num hotel simples e em conta, prestes a ler uma crónica. Estou no pequeno-almoço, formato típico de buffet de hotel. Modesta variedade, ainda assim, comida em barda.

Antes de atirar-me à crónica, logo depois de entar na sala de refeições, impactou-me um aviso que estava na parede, imediatamente a seguir à entrada, mesmo antes da saída “Proíbido levar a bandeja do café da manhã com comida no prato para os quartos!”. Há um entendimento que os avisos só se justificam depois de muitas repetições de algum comportamento. Tal como um dia, nessa torre de 31 andares com 14 apartamentos por piso, 2 elevadores, um para os pisos pares e outro para os impares. Era em Macau, nada a ver com esta história, mas também aí havia um aviso insólito “Proibido urinar nos corredores!” e o devido símbolo a ilustrar o que as palavras gritavam.
De volta ao Rio, a esse pequeno-almoço. Lido o aviso, observei os hóspedes que circulavam com verdadeiras pirâmides de comida nos seus pratos em direção às mesas. Tinha acabado de dar os primeiros passos no Brasil, e apesar de o dia ter acabado de nascer, uma coisa era certa, a comida é assunto sério nesta terra.
A crónica que me aguardava na mesa, de uma revista comprada no aeroporto, era exatamente sobre o tema comida. O autor referenciava um outro autor, maestro no assunto, com obra publicada sobre o tema - Luís Fernando Veríssimo. A coisa empulgou-me. Fui ver o seu trabalho e pela urgência da situação comprei o ebook e em dois minutos, ao sabor de ovos mexidos, bolo de laranja, pão que não é pão, fatias de queijo, fiambre, e uma enorme taça de café, já estava a ler “A Mesa Voadora” - uma compilação das crónicas de Veríssimo.
A primeira crónica, um manual de estratégia de como ter sucesso nessa selva dos buffets de comida de hotel. Planos e dicas de como conseguir as últimas gambas sem ser-se esmagado pela feroz concorrência. Veríssimo explica que é preciso esquecer a ordem social, e a educação inculcada, menciona até ser requisito uma ligeira e inofensiva, mas necessária, cotovelada. O objectivo não é a elegância, o que se pretende é comer o que de melhor há num buffet. Porque, feijão e arroz vai sempre sobrar, mas salmão fumado só os mais audazes conseguem provar. O livro tem uma elegância exímia e um humor certeiro, onde cada virgula marca minuciosamente o ritmo, tão necessário na dança do humor. Uma delicadeza subtil ainda que o tema seja sobre a ânsia de enfardar comida. Nunca mais esqueci o seu apelido - Veríssimo.
Mas, não foi assim que conheci a sua frase que compôe o título. Lá chegaremos. Também não foi no Rio, foi aqui bem no centro de São Paulo, no coração do bairro de Santa Cecília. Deixei o hotel Dona Lú, onde estou hospedado. Hotel simples, um tanto sinistro por fora, um café da manhã pobre. Margarina, café manhoso, pão que nunca o foi, queijo e fiambre abatidos de cores pálidas, muito leite e fruta. Apanho-me com as pequenas e doces bananas e as imensas fatias vermelhas de melancia. Os ovos mexidos deixavam-se comer. Esta manhã ainda havia bolo, perguntei, era caseiro, possivelmente de laranja, estava uma maravilha. O aviso aqui também existe “Proibido levar comida do café da manhã para os quartos”. O fenómeno parece ser nacional.
São noves horas e qualquer coisa. Vou com a mochila às costas, lá dentro um aglmoreado de roupa suja e um livro. Atravesso o cruzamento de Santa Cecília. É domingo, rua fechada ao trânsito, muitos postos de venda, homens em botecos já a beber breja (cerveja), saiu o sol, estão 25 graus. Há homens estendidos no chão, outros a dormir, alguns bebâdos, outros a discutir, uma mulher com os seus dois filhos pequenos de uns 3 e 5 anos, mal vestidos e sujos, contentes a brincarem no passeio e a mãe a pedir esmola, e há muitas pessoas a trabalhar.

Vejo a fascada pintada de um prédio, um desenho, um homem transportando na cabeça uma bacia, onde esperaríamos um monte de roupa encontra-se uma pilha livros e um deles na lombada tem a seguinte inscrição “Algo sobre nós”. Os livros sempre nos contam algo sobre nós.Sobre algo que procuramos, e as respostas surgem nas histórias que nos contam. Experimentem.

Por fim encontro. Deslizo a porta de vidro e entro numa lavandaria. Essas de formato self-service que brotaram por todas as cidades do mundo. Mas esta é diferente. Há uma mulher que aqui trabalha. Ela gere a ordem dos pedidos, recebe os pagamentos e guarda a roupa daqueles que aproveitam para ir outras coisas fazer em vez de ficarem de plantão.
-
Bom dia. Vai lavar e secar? Quantas máquinas? - diz-me, sorrindo sem pressa
-
Uma de lavar e outra de secar - respondo
-
Coloca sua roupa aqui - passa-me um cesto branco de plastico - Dqui a dez minutos a número dois libera, tá?.
Coloco a roupa no cesto, sento-me e aguardo a minha vez ao sabor da leitura.
Entra outro cliente.
-
Ô, gatona. tudo bom? Quantas hoje?
-
Olá, Raquel. Tudobom. Duas de lavar e uma de secar
-
Gatona, vai demorar uns 15 minutinhos, viu? Quer deixar que eu coloco pra voçê?
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Ai, sim, amiga! Vou ali tomar um café rapidinho.
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Aproveita esse sol, gatona - hoje tá coisa linda!
Entra outro cliente.
-
Huguinho, seu gato! Bom dia. Quantas vão ser hoje?
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Olá, Raquel - devolve tímido - vai ser uma de lavar e depois uma de secar.
-
Tá gato, mas tem de esperar uns trinta e cinco minutos. Tá a Paula, aquele rapaz e depois você. Espera ou vai dar um rolê?
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Ai, vou vou que tenho umas coisas para resolver.
-
Fechado, gato! Volta daqui a trinta e cinco minutinhos, tá?
E, entra outro cliente
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Bom dia, senhor! Quantas máquinas vai fazer?
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Três de lavar e duas de secar.
-
Só vai dar daqui a uma hora, viu? Tem quatro pessoas na sua frente.
-
Eu espero. Até trouxe umas bebidas. Sabe como me chamam?
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Não.
-
Cowboy, - o tipo usava chapéu fivela e botas de cowboy - porque vendo roupa de cowboy e já trabalhei com o Raúl Seixas
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Você canta?
-
Eu? Cantar? Nem no banheiro, minha filha! Sou ruim demais!
-
(Raquel riu-se) Ah, mas com esse chapéu, parece cantor de verdade - diz Raquel
-
Essa fivela aqui, ó, - fui eu que fiz. E o chapéu eu comprei, sei onde arrumar uns bem legais. Pró Raúl Seixas vendi umas roupas. Já vendi pró teatro também.
-
Sei! Já trablhei em teatro. Então vai esperar ou volta depois?
-
Não vou a lado nenhum, fico por aqui! - e junta as três latas de uma qualquer bebida na mesa
-
Fechou! Você é o quarto.
Faz-se uma pausa. Raquel tem cabelo ruivo, pintado e apanhado. Mirada curiosa, dificilmente está parada, mas não ansiosa. A chama da vida corre-lhe pelas veias. Aproveita a pausa e reorganiza a ordem das mochilas e dos cestos de roupa. Passa um spray no interior da próxima máquina livre. Depois olha-me nos olhos como quem procura conhecer-me:
- A dois é sua, pode colocar a roupa, tá?;
Agradeço-lhe e faço o que me pede. Volto a sentar-me e tento regressar ao livro. Tarefa complicada. Na televisão passam videos de grandes clássicos de música - queen, pink floyd, radiohead.
Ao meu lado estava um tipo. Talvez um amigo de Raquel.
- Amigo, hoje tá animado, viu? Com sol todo o mundo saiu de casa mais cedo… - diz Raquel ao seu amigo
Uma batida de silêncio. O amigo não responde, Raquel continua
- É … hoje o bicho vai pegar! Tá lindo demais pra ficar trancado.
O amigo mantém-se calado. Mas o cowboy aproveita a deixa e atira:
- Lá no meu bairro tá cheio de chinês. Tão comprando e alugando tudo!
Raquel, não perde tempo:
-
A China é o comuninismo mais capitalista que existe. E, olha o tanto de dinheiro que tão fazendo. Ainda dizem que o comunismo não funciona… - com destreza faz apressdamente az as tarefas que lhe compete - Amigo, vamos aproveitar esta pausa e apanhar um pouco de vitamina D?
-
Bora - responde o amigo com meio sorriso
Saem da loja, fico eu e o cowboy e regresso ao livro.
Quem já frequentou uma lavandaria self-service, conhece essos poços de solidão ao som e ritmo de maquinaria pesada, cheiro a detergente misturado com amaciador e vapor húmido. Paredes decoradas com preços, avisos, password de WiFi, slogans insólitos e as mesmas cadeiras de plástico que se encontram nas salas de espera de qualquer hospital. Nessas brancas e frias salas, a única animação está reservada para a roupa que, no tambor das máquinas, dão pinos e cambalhotas. Já os seus donos penduram-se no telemóvel agonizando no tempo de espera. Para não cair nesse poço é fundamental munir-se de um livro. Mas, por aqui não. A animação e a boa disposição é oferecida de bandeja por Raquel. E eis que regressa com o seu amigo.
-
Você é de onde? - pergunta-me o amigo de Raquel
-
De Portugal. - respondo
-
Jura? Achei que fosse argentino, pelo sotaque - respondeu o tipo
-
Ah, de Portugal! Vejam só! E você faz o quê? - agora pergunta-me Raquel
-
Sou escritor
-
Escritor? Olha que maravilha. Como Camões? Ou o será o próximo Eça de Queirós?
Ri-me.
-
Já tem livro publicado? - pergunta Raquel
-
Ainda não.
-
Mais vai ter! Escreve sobre o quê?
-
A minha jornada. Um pouco biográfico, um pouco de ficção.
-
Gosto! Já tem data para ficar pronto?
-
Este ano - porra, estamos em outubro pensei - o ano que vem.
Raquel olhou-me intrigada, este tipo não está muito convicto e esboçou um sorriso. A curiosidade enchia-lhe a pupilha dos olhos. Ordenou uns cestos, consultou rapidamente o telemóvel e de seguida diz-me:
- Você conhece Clarisse Lispector? Grande escritora! Ucraniana, mas cresceu no Brasil. Leia! Leia, “A hora da estrela”. Eu quando li, queria ser a protagonista. Uma mulher com uma história desgraçada, e eu queria ser como ela, a Macabéa
Raquel veste uns jeans e uma blusa cor mustarda. Olhos rasgados, corpo esguio, está na casa dos 50 anos, brota curiosidade e energia pelo corpo
-
Obrigado pela recomendação. E você trabalha no teatro? - pergunto-lhe
-
Já trabalhei, sim! Em produção. Amo teatro! Adoro trabalhar em produção. Também vendia espetáculos. Mas, meu bem, você sabe… viver da arte não é fácil, né? A gente ama, mas as contas não esperam. Agora tô por aqui. E, Érico Veríssimo conhece?
-
Veríssimo, sim. Li “A mesa voadora”.
-
Ai, não me diga! Eu adoro “A Mesa Voadora” e nenhum dos meus amigos conhece esse livro. Então, veja, Érico é o pai de Fernando Veríssimo, o que escreveu “A Mesa Voadora”. Lê o seu romance, “O tempo e o vento” - atira-me um sorriso, maravilhada pela conversa.
-
Demais, obrigado.

De seguida, dirije-se às máquinas, fecha as portas, pressiona uns botões e continua:
- Sabe, Fernando, o filho de Érico, morreu há muito pouco tempo e mostraram … - pára, olha para a televisão e de seguida diz ao seu amigo - Nossa, Titãs! Eu adoro os Titãs. Este tipo nunca envelhece continua lindíssimo. São bons os titãs não são?
O amigo acena com a cabeca. Fico atento à música. Raquel volta a olhar-me, mirada de criança:
- Sabe, eu tenho um ótimo gosto musical, viu? - faz uma pausa breve e fixa a mirada nos meus olhos - Ah! Mas estava a dizer-lhe. Sabe, quando o Veríssimo morreu, na televisão pasasam a sua frase, “ O mundo não é ruim, só está mal frequentado! “ - sorriu e continuou de um lado para o outro atarefada. Bonito cabelo, olheiras disfarçadas com maquilhagem, olhos vivos.
E, foi assim que conheci essa frase. Concordo com a primeira parte, Raquel relembrou-me o equívoco presente na segunda parte. Gramaticalmente diria, estou de acordo com a primeira oração e em desacordo com a segunda. E se, no lugar de frases, disséssemos orações? Toda a oração tem um sujeito, um verbo e um predicado. Toda a oração tem um pedido, um agradecimento, um diálogo para nos dirijirmos ao sagrado.
E o que é sagrado? Creio que estamos todos de acordo se disser que um ato de amor é sagrado. É um ato de amor limpar o chão da nossa casa onde vivemos. Assim como é um ato de amor do lixeiro que recolhe o lixo das nossas ruas, ou uma flôr que desabrocha, ou uma semente que brota, uma maçã que cresce, a fome que nos traz o apetite, a brisa do vento que nos envolve, um beijo no pescoço, o último raio de sol e o primeiro raio ao acordar, cada gota de chuva, as ondas que rebentam, a celebração num grito de vitoria, a proteção que nos dá um grito de raiva, um sentido pedido de desculpas, um abraço à chegada, as lágrimas de uma perda que nos lava as mágoas, um arco-íris, uma refeição quente, a água potável que sem esforço corre da nossa torneira, a eletricidade à nossa espera na tomada de casa, toda a comida que de tão fácil acesso que temos, a mercearia disponível na esquina de casa.
O sagrado nunca esteve no ceu, está em todo o lado, em todos os atos de amor, em cada átomo, em cada partícula de matéria, presente em cada gesto. Conscientes ou não, cada fala sempre foi e será uma oração. É o diálogo com o sagrado, assim como cada ação é um ato de entrega e amor. É uma danca, um diálogo com algo muito maior do que nós.
Raquel dança ao sabor do sagrado das ações do seu trabalho. As suas tarefas qualquer um podia fazer, são monótonas, todos o dias se repetem. São sempre os mesmos afazeres da rotina do dia-a-dia de uma lavandaria self-service. Raquel, faz com a leveza, a elegância e alegria que ilumina aqueles nove metros quadrados e todos aqueles que por ali entram.
Não lhe perguntei mas é óbvio, Raquel não está apaixonada por abrir e fechar as portas da máquina de lavar e secar, nem ama colocar detergente, ou passar o spray no interior das máquinas entre lavagens, ou colocar amaciador, de receber os pagamentos ou apaixonadamente carrregar nos botões de start, nem tão pouco lavar as cestas de plastico, nem muito menos aquecer o seu almoço no micro-ondas da inexistente copa nas traseiras e comer do tupperware sentada nas cadeiras de plástico ao lado dos clientes.
Aprendeu a gostar do que tem que fazer e graças a esse ato de amor, ilumina os dias daqueles que ali entram e isso é sagrado. É um serviço à causa muito maior que a todos nos governa. Nunca foi o que se faz, mas a forma como se faz.
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E você trabalha em qual teatro? - pergunto-lhe
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Já não tô mais no teatro, mas à noite trabalho lá no café do teatro Teatro Ruthe Escobar. Hoje Tem o “Beijo No Asfalto”. Quere ir?
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Quero!
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Então, aparece lá umas seis e quinze e eu te arrumo um descontinho no ingresso. Vá no café. Se eu não estiver no bacão, pergunta por mim. Todo mundo me conhece.
Interiormente já tinha feito o pedido de ver uma peça de teatro.
Da nesma forma que não existem elefantes feios, cães chatos, leões egoístas ou gatos insensíveis, também no mundo não há pessoas ruins. Há pessoas perfeitamente imperfeitas, algumas melhor manter distância, outras por perto. Todos, absolutamente todos, temos as nossas dificuldades e qualidades, crenças, preconceitos e limtações - faz parte da definição de ser humano. Ninguém veio com defeito. Perfeitamente imperfeitos. Cada partícula, cada átomo e cada pessoa têm uma razão para estarem aqui. Quando descobrimos isso, encontramos o segredo que Raquel já encontrou - a beleza de tudo fazer com amor.
Raquel pratica o sagrado numa lavandaria self-service, num bairo de São Paulo. Fazendo o que lhe é pedido para ser feito. O que para muitos seria um pesadelo de trabalho, para ela é um ato de entrega e amor.
Pense nisso, também eu fiquei maravilhado.
