O Que Não Te Disse
Estas palavras são para ele.
Tinha 18 anos quando fui com o meu melhor amigo e uma amiga, desde Lisboa, para o Porto ver o Carl Cox. Primeiro, perdemos o comboio, o que, na altura, apenas com mesada e alguns trocos de trabalhos extra, custou uma fortuna. Depois, fomos para a estação dos autocarros, onde tinham acabado de sair três autocarros para o Porto. Naquela noite, mais nenhum teria o mesmo destino. A cena é que tínhamos entradas grátis para a discoteca Pacha — de nenhuma forma podíamos perder aquilo.

Liguei para a TAP. Só havia um voo Lisboa-Porto e estava em overbooking. Ficámos em fila de espera, no caso de alguém cancelar a sua viagem. Sem sabermos o que fazer, parecia não haver forma de chegarmos ao nosso destino. Foi nesse momento que o taxista, que nos levava, pediu desculpa por interromper a nossa conversa. Eu pensei: “O que é que raio este tipo nos vai dizer?” — e ele sugeriu irmos com ele de táxi para o Porto. Nós aceitámos. Fomos a casa do meu melhor amigo — só ele tinha essa quantidade de dinheiro com ele. Depois disso, arrancámos.
Durante três horas, fomos os três no banco de trás do táxi, a enrolar e fumar ganzas. Íamos trocando de lugar. Quem estava à janela fumava, quem estava no lugar do meio esperava. Talvez te estejas a perguntar quanto pagámos por essa viagem. Isto aconteceu há mais de vinte anos — ainda o euro não estava a circular. Foram 56 contos — hoje seriam uns 300 euros por essa corrida de táxi.
Conheci o meu melhor amigo aos 15 anos. Estávamos na mesma turma do secundário e partilhávamos os mesmos gostos pela música eletrónica, em especial pelo techno e hard house. Começámos os dois a aprender, por nós próprios, sem internet, aulas ou professores, a misturar músicas com dois pratos, uma mesa de misturas e discos de vinil. Ele tinha um talento natural para aquilo, aprendeu muito rápido — o tipo era muito bom.
Fomos muitas vezes os dois a lojas de música ouvir dezenas e dezenas de discos de vinil para comprar música nova. Escolhíamos os que gostávamos, pagávamos e íamos, de seguida, para casa, para misturar as novas malhas.
Uma vez, fomos os dois tocar techno a um pequeno bar nos subúrbios onde crescemos. Não estavam mais de vinte pessoas a ouvir-nos. Nós celebrámos como se fosse um festival com mais de mil.
Por causa das ganzas, tivemos vários problemas com a polícia. Uma vez, numa grande rusga com duas carrinhas e mais de oito polícias, nós, e todos os amigos com que estávamos, fomos revistados de alto abaixo. Não encontraram nada. Tínhamos uma boa quantidade de erva connosco que, por milagre, escondemos antes de todos os polícias chegarem. Essa vez também celebrámos.
E um dia, ele desapareceu. Assim, de repente, desapareceu. Desapareceu a fazer aquilo de que ele mais gostava na vida: caça submarina. Nunca entendi como lhe dava tanto prazer caçar e apanhar peixes, mas a verdade é que ele adorava fazer aquilo.
Recebi a chamada num sábado de manhã. Estava no Algarve, no segundo dia de um retiro de Ayahuasca. Antes da chamada, tinha várias chamadas não atendidas da namorada. Achei estranho — ela raramente me ligava, muito menos com tanta insistência. Pensei que tivessem discutido. Uns minutos depois, o telefone tocou. Ela começou a falar, a voz dela tremia, e a chamada caiu. Aí percebi que não tinha sido uma discussão. Voltou a ligar — e foi quando me disse que ele tinha ido sozinho fazer caça submarina e não tinha regressado. Já estava desaparecido há dez horas.
Peguei em todas as minhas coisas e vim com um amigo que também estava no retiro comigo. Conduzi 300 km até ao lugar onde ele tinha desaparecido. Não falámos uma única palavra durante toda a viagem. Quando chegámos ao local, tínhamos um vasto oceano pela frente. Os amigos mais chegados começaram a juntar-se. Sabíamos que a probabilidade de o encontrarem com vida era muito baixa. Eu rezava para que encontrassem o corpo. Havia helicóptero, barco, mergulhadores e drone. Nada. À medida que o sol foi descendo e o mar se agitando, as buscas tiveram de parar.

Na vida, tal como quando tomo a medicina de Ayahuasca, tenho uma grande dificuldade em deixar-me levar, em confiar. Acabo sempre por agarrar-me a esta sensação de controlo, como se conseguisse controlar alguma coisa na vida.
Não estava preparado para voltar para o retiro. De facto, já tinha todas as minhas coisas prontas no carro, para ir para casa e estar com a minha mulher e o meu filho. No último minuto, decidi voltar para o Algarve, para mais uma noite de medicina, de Ayahuasca.
Peguei no carro e, com o meu amigo, fizemos mais 300 quilómetros, sem palavras. Chegámos a tempo de começar a cerimónia. Estava completamente destruído — não tinha nenhuma força para me agarrar ou tentar controlar o que fosse. Restava-me apenas pedir redenção e confiar na medicina, no processo. Confiar na vida. Foi uma das sessões mais potentes até hoje. Um processo de cura, entendimento e libertação de dor que habitava em mim.
Nunca houve um funeral para o meu amigo. O corpo nunca foi encontrado. Legalmente, ele não está morto — está desaparecido. Já passaram dois anos. Durante muito tempo, foi um sofrimento constante, sempre presente. Havia muitas coisas que não tive oportunidade de lhe dizer. Quais são as chances de perdermos um amigo antes dos quarenta? Comecei a escrever-lhe cartas para lhe dizer tudo o que não tinha dito. Gosto muito de ti. Sinto muito a tua falta. Fiquei magoado por te teres afastado de mim. Hoje vejo os teus defeitos, que tantas vezes julguei e critiquei, e hoje aceito-os. Gostaria de ter aproveitado mais a pessoa que és, em vez de te julgar e tentar mudar-te. Quando terminei as cartas e comecei a lê-las, apercebi-me de que as mesmas palavras podia — e comecei — a dizê-las a mim mesmo.
A morte é inevitável e, no entanto, estranha. Sofri muito com a tua perda. Gostaria muito que estivesses aqui hoje para leres os textos que já escrevi, as poesias ou os contos. Ou para veres o meu filho a crescer e a força com que chuta a bola. Três dias depois do teu desaparecimento, cumpri quarenta anos. Fizemos uma festa para celebrar. Celebrar a tua vida. Quase no final da festa, dei por mim sozinho, fechado na casa de banho, num choro compulsivo: queria muito que estivesses ali connosco. Só uns meses depois percebi o quão egoísta era esse pedido.
Acredito que, daqui, vamos para outro lugar — na mesma lógica em que viemos de algum lado antes de nascermos aqui. Acredito também que todos temos um caminho a percorrer, uma jornada, e que estamos todos exatamente onde deveríamos estar. Não sei onde estarás, mas acredito que estejas a fazer o teu caminho — tal como eu estou a fazer o meu. Tal como todos nós. Neste momento, eu estou agora aqui a escrever — tu estarás a percorrer a tua vida. Todos temos vidas independentes, e cada um de nós tem os seus passos para dar.
Só sentimos falta, só sentimos saudades daqueles que realmente amamos. O amor que sinto por ti manifesta-se nessas saudades. É o amor noutra forma — na forma de saudades. Diferente do que estamos habituados, mas não deixa de ser amor. Sentir a tua falta é uma bela forma de amor.
Gostaria de dedicar estas palavras a ti e à nossa conexão, porque às vezes, em alguns momentos, sinto que caminhas exatamente ao meu lado.
Obrigado.