Glória e Dor

Voltei a recebê-la em casa

Um reencontro inesperado, uma recaída inevitável

Já não estávamos juntos há dois anos. Encontrei-a por acaso. De início, hesitei. Mas os olhos dela disseram-me tudo. A chama tinha regressado. Levava semanas entre a timidez e a ansiedade. Os dias passavam e eu sem saber se dar o primeiro passo. Será que deveria lançar-me? Ou primeiro perguntar? A dúvida alvoroçava-me. Durante o dia esquecia-me de coisas, durante a noite ficava em claro.

As cores de setembro. Ericeira, Praia dos Pescadores

Dois anos inteiros com apenas contatos cordiais, sem uma mirada ou uma carinhosa palavra. Acreditei que nunca mais a iria encontrar. Que era mesmo o fim.* *Mas assim de repente, este fogo extinto estava novamente em chamas. Não foi uma, mas sim três vezes. Trocámos olhares, gritava o desejo… Mas e ela, estaria a sentir o mesmo? Ou tudo isto seria apenas um devaneio?

Ninguém sabia disto. Ocultei aos melhores amigos. Regressaríamos depois de todo este tempo? Tinha vergonha. Era algo que me poderia fazer mal. Eu sabia disso. Mas como resistir a uma força que vem de dentro? Proibi-me de a ter por perto. E ainda assim, todos os dias pensava nela.

Engane-se quem pense que este é um amor corriqueiro fugaz de verão ou fruto de uma noite de soltura. Nada disso. Ela sabia tudo de mim. Sabia como tocar-me sem me tocar. Aquele seu brilho que me fazia esquecer onde estava.

Voltaria a recebê-la em casa. Ai se voltaria. Na casa que já foi nossa. Onde já vivemos apaixonadamente juntos: no quarto, no sofá, na mesa da cozinha, em cima da máquina de lavar roupa em funcionamento, também na relva nos dias primaveris.

Um amor que parecia não ter fim. Mas os problemas entraram e acabei em desgraça. Eu com dores de barriga e análises médicas. Eu angustiado e ela muda, nem uma palavra. Separamo-nos, e parecia que tinha sido melhor assim.

Com o passar dos meses já me tinha convencido de que a tinha esquecido. Estava preparado e disponível para um novo amor. Quem sabe uma nova família. Apercebi-me quando já atirava olhares a outras. Pronto para deixar o passado: seis anos dessa montanha-russa sem cinto de segurança deixaram o meu coração fragilizado e a cabeça derretida em água. O amor ilumina mas às vezes, quase mata.

E por aí fui conhecer outras. Encontrava, mas nunca era o mesmo. Quando te dei por esquecida foi quando percebi que nunca tinha deixado de pensar em ti.

Trocámos uns olhares e eu senti a chama de volta. Também em ti o desejo ardia no teu interior? Poderia a pergunta matar o sentimento? Poderia a pressão apagar a magia? O medo deixava-me paralisado, a incerteza de saber o que aconteceria se a tomasse. Quantas vezes ao final do dia a imaginava e ardia o desejo de a devorar.

Já imaginava o nosso primeiro date. Primeiro os olhares, ler os seus sinais e que as suas pistas fossem como faróis que iluminassem os próximos passos. Avançaria devagar sem nunca matar o suspense. Começaria como o vento, com suaves carícias, até sinto arrepios - um pouco aqui, outro tanto ali. Respiraria o seu cheiro - ah esse perfume natural. Depois a sua textura - mais ninguém tem como a sua. E pela primeira vez, não iria ter pressas. Não havia nenhum objetivo, não quereria chegar a nenhum lado, apenas e tão grandiosamente senti-la. Tê-la comigo. Imaginar a minha língua já me deixava fora de mim. Deus ajude-me, será este um amor divinamente proibido? Serei eu Pedro e ela Inês de Castro?

Muitas vezes não a consigo entender. Mas alguma coisa tenho de fazer. Poderia escrever-lhe. Enviar uma carta. Nada disso. Fui buscar ao fundo das entranhas a força que precisava e aventurei-me. Lancei-me no desconhecido pela terra onde só os bravos caminham. É nos desafios que se cresce como pessoa, ninguém se fez marinheiro no chuveiro da sua casa.

Vesti-me. Não pus a melhor roupa, não se fosse ela assustar que lhe fosse pedir para casar. Fui até ao supermercado, diretamente ao corredor onde estava o meu amor. Um lugar estranho, nunca gostei das grandes superfícies, sempre preferi as pequenas e recatadas mercearias de bairro.

Entrei. Apinhado de gente, as luzes brancas e gélidas, o ar rarefeito pelo ar condicionado. Esqueci os obstáculos, evitei as pessoas e os seus olhares pesados. Fui ao corredor onde sempre nos encontrámos e ali estava ela, bela como sempre - meu amor, eu nunca te esqueci. Olhei para ela e sem medo nem receios peguei nesse lindo e brilhante frasco de maionese.

Peguei no mais pequeno, 200 gramas. O frasco grande poderia matar-me, demasiado amor para este coração. Paguei e trouxe-o para casa. No caminho o meu coração já galopava e o desejo dilatava-me as pupilas. Há anos tinha-me proibido a luxúria de ter semelhante tentação de frasco em casa, na nossa casa, na cozinha, no interior do nosso frigorífico. Hoje soltei as amarras deste amor declarado como interdito.

Entrei em casa, ansioso e descontrolado. Fui até à cozinha, cortei uma fatia de pão, do nosso favorito. Peguei na nossa colher de café. Entretanto, esqueci completamente de descalçar-me ou de tirar o casaco - mas isso agora não importa nada. O desejo ardia e a euforia galopava. Veio o tal desejado momento, abri a tampa do frasco. Aquele click é maravilhoso, foi assim que nos apaixonámos.

Só de escrever os arrepios afloram-me pela coluna. Meti a nossa colher dentro de ti, nesse frágil e cristalino frasco - uma consistência quase indecente. Um perfume ligeiramente ácido afagava-me as narinas - estavas tão fresca. Tremendo o pulso, barrei-a pelo pão. A sua cor branca cegava-me os olhos. Sentei-me confortável no sofá e muito lentamente, a meti na boca. Deixei-me cair para trás e parecia que estava a tocar no céu com as mãos. Que saudades meu amor que tinha de ti.

Depois do orgasmo, vou confessar-te. Tantas vezes procurei em apps e folhetos por outras: manteiga dos Açores, margarina, manteiga francesa e até fui a coisas mais modernas - manteiga de amendoim, amêndoa ou caju. E nenhuma delas a ti se comparava.

Bem sabes que não sou de modernices mas até aventurei-me por outros formatos. Relações não monogâmicas - manteiga dos Açores à segunda-feira, manteiga de amendoim à quinta. Demasiada gestão, demasiada luxúria - mas nada como o nosso amor.

Porque é que esperámos tanto tempo? Só nós guardamos o sabor do amor de verdade. Dá-me um pouco mais. Mais duas colheradas e uma sinfonia de notas de prazer ecoava no meu interior. Afundei-me no sofá. Amor servido às colheres para meu prazer.

E só mais uma, só mais uma pequena colher. Quando olho para ti, o frasco já estava como eu, quase vazio. Antes da tristeza abraçar-me, li os ingredientes da minha amada e fiz contas de cabeça: em trinta segundos, deste amor intenso, tinha consumido 1440 calorias — quase o total que um adulto deve comer num dia inteiro, engolido em segundos. Que injusto é o mundo! Que implacável é o colesterol! Alegre-se doutora Manuela, em breve, regressarei à terapia.

Este amor durou trinta segundos e agora o que faço no resto do dia? Para não afundar-me no desgosto, resisti e deixei um pouco no fundo do frasco e guardei no frigorífico. Na prateleira da porta.

Quando o desejo voltou a apertar, voltei-me para a manteiga dos Açores. Atenuava mas não satisfazia.

Sempre que abro o frigorífico ela olha para mim. Eu olho de volta. O desejo aperta-me. Quero só mais um bocadinho - mas sei que nunca chega. Resisto.

Às vezes abro o frigorífico de olhos fechados, mas ela espreita-me entre as frestas dos dedos. Como se pode viver assim? Este fogo que arde sem se ver está a consumir-me as entranhas. Tem-me completamente na sua mão. No outro dia piscou-me um olho. Quem lhe ensinou?

Tive de tomar medidas. Retirei todas as coisas do frigorífico, excepto a ela, e coloquei-as no forno. Assim a minha amada maionese ficou ali sozinha e eu já não tenho mais de ir ao frigorífico. Só abro o forno, é um descanso.

Hoje sei que estou mais forte. Não são os impulsos que controlam a minha vida. Hoje posso ir à cozinha sem regressar culpado. Estou completamente apaixonado e sei que jamais te poderei esquecer, mas é melhor assim. Os nossos corações não aguentam tudo isto. Se somente me pudesse controlar e não comer-te toda de uma vez seria uma pessoa feliz. Mas sei que esse mundo está fora do meu alcance.

Hoje decidi. Por ti, por nós: vou passar um mês ao Alentejo. Longe desta casa, longe de ti, longe de nós. Deslembrar deste amor proibido. Oxalá que o sol ilumine o meu caminho para encontrar um amor mais saudável.

Olá, maionese vegana.