Não é Ficção

A única sobrevivente do voo LANSA 508

Juliane Koepcke caiu do céu e caminhou 11 dias sozinha pela selva.

No dia 24 de dezembro de 1971, o aeroporto de Lima estava cheio. Os voos para a selva iam saindo um após o outro, todos completos. Era véspera de Natal e ninguém queria ficar para trás. Havia uma urgência comum: chegar a casa a tempo.

Avião do voo LANSA 508

Restava um voo para Pucallpa, operado pela LANSA. A companhia tinha uma reputação difícil de ignorar. Nos anos anteriores, tinham ocorrido acidentes graves, e o nome surgia associado a falhas técnicas e más decisões. Não era o tipo de voo que se escolhia com confiança — era o que se aceitava quando já não havia alternativa.

Juliane Koepcke tinha 17 anos e estava com a mãe. Queriam regressar à estação biológica na Amazónia, onde o pai as esperava para o Natal. Ele tinha deixado um aviso claro: evitar a LANSA.

Naquele momento, o aviso parecia menos prático do que urgente. À volta, os lugares desapareciam, o tempo encurtava. Era o último voo disponível. Havia um avião. Havia dois lugares. E isso foi suficiente.

O Voo

Os primeiros minutos de voo decorrem sem sobressaltos. O avião ganha altitude e estabiliza. Nada indica que aquele voo será diferente de tantos outros.

À medida que avançam para leste, o céu fecha-se. As nuvens tornam-se densas e escuras, até que o avião entra na tempestade. A turbulência começa. No início são apenas solavancos. Depois tornam-se mais fortes. O avião treme, oscila. As conversas param.

Juliane está junto à janela. Lá fora, vê apenas escuridão interrompida por relâmpagos. Um deles atinge o avião. O clarão é imediato. Um som seco. Durante um instante, tudo parece suspenso.

E depois deixa de responder. A inclinação muda, o movimento torna-se irregular. O que era turbulência passa a ser perda de controlo. A descida começa. O interior reage — objetos soltam-se, o corpo é puxado pelo cinto, o espaço deixa de fazer sentido.

E depois, de forma abrupta, tudo desaparece.

Juliane continua presa ao banco — mas o avião já não está ali.

“Eu não tinha deixado o avião; o avião é que me tinha deixado.”

De um momento para o outro, está no ar. Ainda presa ao banco, ainda com o cinto apertado, mas sem nada à volta. Não há fuselagem, nem asas, nem cabine.

“Eu estava suspensa no ar, ainda no meu assento… eu estava sozinha… e estava a cair, cortando o céu… a cerca de 3 quilómetros acima da terra.”

E depois perde os sentidos.

Destroços do voo LANSA 508 e Juliane Koepcke

Sozinha na selva

Quando volta a si, já não há movimento. Está deitada no chão, coberta de lama, com a luz a chegar filtrada pelas árvores. Durante alguns segundos, não percebe onde está. Mais tarde saber-se-á que pode ter passado quase um dia inteiro desde a queda. Ali, no entanto, não há forma de o perceber.

Levanta-se por instantes e percebe que está sozinha. Não há avião, nem vozes, nem qualquer sinal de outras pessoas. Perdeu os óculos. Tem ferimentos, mas a dor chega de forma distante. Chama pela mãe. Não há resposta.

Procura à volta algum sinal, mas não encontra muito. A selva absorveu quase tudo. Apenas alguns objetos dispersos. Entre eles, encontra um pequeno saco de rebuçados. Guarda-o.

Durante algum tempo, ainda ouve aviões ao longe. O som passa por cima das árvores, distante, sem direção clara. Levanta a cabeça sempre que acontece, como se isso pudesse fazer diferença. Mas não há forma de ser vista.

É então que surge uma lembrança. O pai tinha-lhe explicado uma regra simples:

“Se te perderes na selva e encontrares água corrente, fica perto dela, segue o seu curso. Ela levar-te-á a outras pessoas.”

Juliane Koepcke na selva

Seguir a água

Juliane levanta-se. Não sabe se vai resultar, nem quanto tempo pode demorar. Mas é a única direção que tem.

Mais tarde, ao recordar esses dias, disse:

“Não tinha medo e não sentia dor. Só sabia uma coisa: tinha de sair daqui.”

Os primeiros passos são curtos. Sem óculos, tudo surge desfocado. A vegetação fecha-se à volta dela. Não há trilhos, nem aberturas. O calor é constante e os insetos estão sempre presentes.

A água mantém-se por perto, às vezes visível, outras quase escondida. Juliane acompanha-a, ajustando o ritmo ao que o corpo permite.

Tem consigo um pequeno saco de rebuçados. Come um de vez em quando. É a única coisa que tem. Bebe água do rio.

Não pensa muito no que está a fazer. Não há plano para o dia seguinte, nem uma ideia clara de quanto tempo aquilo pode durar. Um passo, depois outro, seguindo a água.

Quarto dia

Ao quarto dia, vê primeiro os abutres. O cheiro chega pouco depois, pesado, difícil de ignorar.

Mais adiante, encontra uma fila de três bancos cravada no chão. Estão enterrados de frente, como se tivessem sido atirados com força suficiente para perfurar a terra.

Aproxima-se devagar. Pega num ramo e toca num dos pés. Vira-o ligeiramente. As unhas estão pintadas. Fica ali um instante. Não é a mãe.

A ferida

Com o passar dos dias, apercebe-se de vários ferimentos, mas um em particular destaca-se: um corte profundo no braço, aberto desde a queda, que não chegou a fechar.

No início, é apenas desconforto. Mas aos poucos, algo muda. Levanta o braço e olha com mais atenção. Há movimento. Dentro da ferida, algo se mexe. Larvas.

Mais tarde, descreveria esse momento:

“Eu estava a ver o meu próprio corpo tornar-se comida, decompondo-se enquanto eu ainda estava consciente.”

Fica imóvel por um instante. Não reage. Baixa o braço.

E continua a andar.

O primeiro sinal

Ao décimo dia, a água já é mais larga e mais lenta. Em vários momentos, Juliane deixa de caminhar pela margem e entra no próprio curso, avançando dentro do rio ou deixando-se levar por trechos curtos. O movimento mantém-se, mas com menos controlo.

É numa dessas curvas que vê algo diferente. Primeiro, não percebe o que é. Aproxima-se devagar, até que se torna claro: é um barco.

Fica ali alguns segundos. Depois avança mais um pouco e estende a mão. Toca-lhe. É sólido.

Olha em volta. Não há ninguém. Acima da margem, há um caminho estreito que sobe entre a vegetação. Tenta segui-lo. A subida é curta, mas demora. O corpo já não responde como antes. Apoia-se com as mãos, avança devagar, até conseguir chegar ao topo.

Lá em cima, encontra uma cabana. É simples, aberta, com poucos objetos no interior: ferramentas, um motor fora de bordo, um bidão. Não há sinais de quem ali vive, apenas a presença recente de alguém que não está.

Juliane entra. Pela primeira vez desde a queda, pode parar.

Gasolina

A ferida no braço está pior. Inflamada, aberta, impossível de ignorar. Lembra-se de algo que tinha visto antes na estação biológica onde os pais trabalhavam: feridas semelhantes tratadas com combustível para expulsar os parasitas.

Olha para o bidão. Aproxima-se, abre-o e inclina-o com cuidado. O cheiro é forte. Com a outra mão, leva um pouco do líquido até à ferida.

Durante um instante, nada acontece. Depois, a reação. A dor é imediata, intensa. Fica imóvel, à espera que passe, sem afastar o braço. Pouco depois, começam a sair. As larvas abandonam a ferida, forçadas pelo líquido.

Juliane observa. Não há pressa nem alívio imediato. Apenas a sensação de que, pela primeira vez desde a queda, fez alguma coisa para alterar o que estava a acontecer.

As vozes

Depois de algum tempo na cabana, ouve vozes. No início, não reage de imediato. Durante dias, houve momentos em que pensou ver ou ouvir coisas que não estavam ali. Fica parada, à escuta, sem saber se aquilo é real.

As vozes aproximam-se. Vêm da vegetação, do caminho que desce até ao rio. São indistintas no início, mas suficientes para não poderem ser ignoradas. Juliane levanta-se com dificuldade e sai da cabana.

Pouco depois, vê-os. São três homens, lenhadores, que regressam ao local. Ao vê-la, param. Durante um instante, ninguém se aproxima. O aspeto dela — coberta de lama, ferida, os olhos vermelhos — não corresponde a nada que esperassem encontrar ali.

Juliane fala primeiro:

“Sou uma rapariga que estava no acidente da LANSA. O meu nome é Juliane.”

A distância mantém-se por alguns segundos. Depois, um deles avança. Falam pouco. Não é preciso muito para perceberem o que aconteceu. Ajudam-na a sentar-se, limpam as feridas como podem.

Horas mais tarde, levam-na de barco pelo rio até ao primeiro ponto habitado.

Durante 11 dias, não soube se estava a ir na direção certa. Apenas continuou a andar. Foi a única sobrevivente entre 92 pessoas.

“A selva apanhou-me e salvou-me. Não foi culpa dela eu ter aterrado ali.”

Dias mais tarde, encontraram a mãe. Tinha sobrevivido à queda, mas não conseguiu sair da selva.

Juliane Koepcke regressa ao local do acidente em 1998

Juliane Koepcke junto aos destroços do voo LANSA 508 em 1998

Depois

Mais tarde, saber-se-ia que o avião tinha sido atingido por um relâmpago, que provocou uma explosão num dos depósitos de combustível. A estrutura começou a ceder ainda no ar.

O voo tinha entrado diretamente numa tempestade intensa — algo que devia ter sido evitado. A companhia, LANSA, já tinha um histórico de acidentes e problemas operacionais, com práticas de manutenção e controlo de segurança frequentemente apontadas como insuficientes. Acabaria por encerrar no ano seguinte, em 1972.

Anos mais tarde, Juliane Koepcke escreveria sobre o que aconteceu em When I Fell From the Sky (Als ich vom Himmel fiel), publicado em 2011. A sua história foi também retratada no documentário Wings of Hope (1998) (A Queda de Juliane na Selva), de Werner Herzog.