Não é Ficção

Descolou. E ninguém percebeu porquê.

Durante mais de uma hora, falou calmamente com a torre… enquanto pilotava um avião que nunca deveria estar no ar

Sexta-feira dia 10 de agosto de 2018, Seattle, Estados Unidos. Richard Russell entra ao serviço no aeroporto de Seattle-Tacoma International Airport às 14:36. Passa o controlo de segurança para os funcionários, mostra o cartão e segue para dentro como em qualquer outro dia. Através dos registos das câmaras de segurança, vê-se Richard vestido com uma t-shirt preta que tem a frase “the sky’s no limit” (o céu não tem limites)

Às costas leva uma mochila e dá início ao seu turno. Durante as horas seguintes, não há nenhum comportamento fora do normal, nenhum sinal que antecipe o que vai acontecer.

Cinco horas depois, já ao final da tarde, pode ver-se Richard a andar numa zona afastada do aeroporto, na área de carga, no extremo norte. Ali encontra-se um Bombardier Q400 estacionado, sem passageiros e sem tripulação.

Richard Russell e o voo do Bombardier Q400

Richard aproxima-se do avião com um veículo de reboque. Para quem observa de longe, não há nada de estranho, isto é exatamente o tipo de operação que acontece todos os dias.

Russell usa o reboque para puxar o avião e alinhá-lo com a pista. O avião começa a mover-se, sem ninguém no cockpit. Ele desengata e sai do reboque, corre na direção do avião, abre a porta, sobe num movimento rápido e puxa-a para fechar atrás de si, desaparecendo dentro do cockpit.

O avião continua a deslocar-se pelas vias do aeroporto. À distância, nada chama particularmente a atenção. Aviões movem-se constantemente, rebocados, alinhados, preparados para partir. Este parece apenas mais um. Mas há um detalhe que começa a levantar dúvidas: não há qualquer comunicação com a torre. Nenhum pedido de autorização. Nenhuma identificação. Nenhum plano de voo associado àquele movimento.

Os controladores começam a tentar contacto, primeiro como fazem sempre, assumindo que se trata apenas de um atraso ou de uma falha momentânea.

— A aeronave na pista 16C, indique intenções.

Do outro lado, silêncio.

O avião continua a avançar, agora alinhado com a pista, como se estivesse a seguir um procedimento que ninguém autorizou. Na frequência, outros pilotos começam a reparar. Alguns observam desde a cabine dos seus aviões, outros ouvem a insistência da torre.

E então alguém diz aquilo que muda a percepção de todos: há apenas uma pessoa no cockpit. Mas não é um piloto, é Richard Russell que segura os comandos pela primeira vez, com o avião já em movimento.

Está agora perfeitamente alinhado com a pista. Do lado de fora, a situação deixa definitivamente de parecer normal. Não há autorização de descolagem, não há qualquer confirmação da torre e, ainda assim, o avião continua a avançar.

Os controladores insistem, agora com urgência:

— A aeronave na pista 16C, indique intenções.

O avião acelera, passa a velocidade de decisão — já não pode travar com segurança — mantém-se estável na pista e, poucos segundos depois, levanta o nariz, e descola.

Durante alguns instantes, há silêncio. E é nesse momento, já demasiado tarde para que aquilo seja apenas um erro, que finalmente surge uma voz no rádio, calma, quase descolada do momento:

— Sou um funcionário de terra… não sei como aterrar isto.

Um funcionário de terra acabou de levantar voo num avião comercial - sem plano, sem treino, sem forma clara de voltar a terra.

O avião afasta-se do aeroporto e começa a ganhar altitude.

Durante os primeiros minutos, não há qualquer tentativa de regressar, nenhum pedido de aterragem, nenhum destino. Na torre, a prioridade muda. Já não se trata de perceber o que aconteceu, mas de evitar o pior. Tentam falar com ele, mantê-lo em contacto, ganhar tempo.

Richard Russell no Aeroporto Internacional de Seattle-Tacoma

Do outro lado, a resposta chega.

— Encontrei-me numa situação um pouco complicada… estou no ar neste momento, só a voar por aqui.

A torre responde quase de imediato:

— Acabou de descolar?

— Sim, estou no ar agora.

— Não devia estar nesse avião, pois não?

— Pois… fiz uma coisa má. Uma coisa egoísta… mas está tudo bem. Vou ali dar uma volta ao Rainier (monte glaciar localizado no estado de Washington).

A conversa continua, num tom que não encaixa no que está a acontecer.

— Então está a dizer que sequestrou o avião?

— Sim, receio que sim.

A torre continua:

— Parece confortável a voar o avião?

— Claro, isto é incrível! Já joguei videojogos antes, por isso sei mais ou menos o que estou a fazer.

O avião continua a subir.

Ele olha para baixo.

— O tempo aqui está impecavelmente limpo! Acabei de dar uma volta ao Rainier. Isto é lindíssimo!

— Acho que ainda tenho combustível para ir ver os Olympics (Parque Natural Olympic).

A torre tenta criar uma conexão:

— Se consegues ver os Olympics, então o tempo está bom. Eu consigo vê-los daqui da minha janela e parece estar ótimo daquele lado.

— Meu, já foste ao Olympic? Fogo, isto é lindo!

Uma pausa e muda o tom.

— Isto provavelmente dá prisão para a vida toda, não dá? Eu espero que sim para um tipo como eu.

Há um breve silêncio, um prenúncio do que está por vir. Richard desabafa:

— Há muitas pessoas que se preocupam comigo, e vai desiludi-las saber que fiz isto. Sou só um tipo meio perdido, com alguns parafusos a menos, nunca tinha percebido isso até agora.

A torre continua a tentar ajudá-lo. Dizem-lhe que o vão guiar, que há pilotos disponíveis, que podem ajudá-lo a aterrar.

Ele ouve, mas não responde nessa linha.

— Não sei como aterrar isto. Epá, não estava a planear aterrar.

A conversa continua. Mas já não é uma negociação. É alguém a falar, enquanto continua a voar.

O avião mantém-se no ar, afastando-se da zona mais movimentada, sem rota definida nem plano de aterragem.

Richard Russell começa a experimentar o avião.

— Quero fazer algumas manobras. Ver o que isto consegue fazer antes de o pôr no chão. Ó senhor piloto! Achas que isto consegue fazer um, um backflip?

E continua:

— Vou tentar fazer um barrel roll e, se isso correr bem, aponto o nariz para baixo e dou isto por terminado.

O avião inclina-se, ganha velocidade, sobe.

E depois, num momento que não encaixa em nenhum cenário normal de aviação comercial, executa um barrel roll — uma manobra acrobática em que o avião roda sobre si próprio enquanto continua a avançar, e faz um looping completo.

Um avião de passageiros, sem qualquer motivo operacional, a fazer aquilo que só se vê em demonstrações aéreas.

Da torre, ouve-se:

— Rick 41, o TOI1 acabou de fazer um barrel roll.

— Rock 42, consegues confirmar que ele fez um barrel roll?

Há uma pausa curta. Na torre, confirmam o que acabaram de ver.

— Afirmativo. Ele acabou de fazer um barrel roll. Passou a cerca de 3 metros da superfície da água.

A excitação dura pouco. A torre tenta aproveitar o momento:

— Rich, daqui fala o Capitão Bill. Parabéns, conseguiste! Agora vamos tentar pôr esse avião no chão em segurança, sem magoar ninguém.

Do outro lado, a resposta muda de tom.

— Ok… não, porra, não sei, pá. Não sei — há um riso curto, meio nervoso, meio resignado — estava a pensar que aquilo fosse o fim!

E ele continua:

— Sinto que um dos motores está a falhar…

O nível do combustível está a esgotar-se. O avião mantém-se no ar durante mais alguns minutos. A comunicação continua aberta, mas as respostas tornam-se mais curtas, mais espaçadas. Na torre, continuam a tentar falar com ele, mantê-lo focado, dar-lhe opções, mas já não há plano.

Russell aponta o avião para a pequena ilha Ketron Island, de poucos habitantes.

Pouco depois, o avião desapareceu do radar.

Ninguém no solo ficou ferido.

Mais tarde, as autoridades confirmaram o que já se tornara inevitável.

Richard Russell morreu no impacto.

Destroços do avião na Ketron Island

“Sou só um tipo meio perdido… com alguns parafusos a menos… nunca tinha percebido isso até agora.” Richard Russell

Richard Russell

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