Tsutomu Yamaguchi
Depois de sobreviver
6 de agosto. A manhã tinha começado sem nada que a distinguisse das outras.
O calor já se fazia sentir, pesado e húmido, colando a roupa ao corpo. Tsutomu Yamaguchi, engenheiro naval, seguia em direção ao estaleiro da Mitsubishi Heavy Industries com a naturalidade de quem já repetira aquele percurso vezes suficientes para deixar de pensar nele.
Era o seu último dia daquela viagem de trabalho.
A ideia de regressar a casa ocupava-lhe o pensamento como uma promessa silenciosa de normalidade.
Não havia pressa.
Nem qualquer sensação de urgência.
O dia parecia destinado a cumprir-se sem sobressaltos.
E talvez por isso o detalhe tenha surgido de forma tão discreta, quase impercetível.
Não foi um pensamento claro, nem uma memória súbita, mas antes uma espécie de desconforto leve, como quando algo não está exatamente onde deveria estar.
Parou.
Levou a mão aos bolsos.
O pequeno carimbo pessoal, necessário para validar documentos, ficara para trás.

Enquanto voltava para o buscar, o céu abriu-se num branco impossível.
Não foi uma explosão no sentido em que uma explosão se deixa compreender. Foi primeiro luz, depois calor, depois uma força que arrancou o corpo do chão e o atirou para longe da manhã.
Quando Yamaguchi recuperou a consciência, a cidade já não obedecia às formas habituais. Havia silêncio onde devia haver trânsito. Havia fogo onde devia haver sombra. Havia pessoas a caminhar sem direção, como se o mundo tivesse perdido o nome das ruas.

Ferido, queimado, com os ouvidos tomados por um ruído contínuo, conseguiu chegar a um abrigo. Passou a noite entre outros sobreviventes, cada um preso ao seu próprio espanto.
No dia seguinte, procurou uma estação.
Queria regressar a Nagasaki.
Queria voltar para casa.
Durante a viagem, transportava no corpo a prova de que Hiroshima tinha acontecido. Mas a dimensão do que vira era tão absurda que parecia resistir à linguagem. Como explicar uma cidade reduzida a clarão? Como contar a alguém que o próprio ar se tornara uma arma?
Em Nagasaki, apresentou-se ao trabalho.
Era 9 de agosto.
Yamaguchi tentava descrever aos superiores o que acontecera em Hiroshima quando uma nova luz atravessou a sala.
Outra bomba.
Outra cidade.
Outra manhã partida.
Desta vez, estava protegido pelas paredes reforçadas do edifício. Sobreviveu novamente. A família também sobreviveu, embora a cidade à sua volta tivesse sido devastada.
Durante décadas, Tsutomu Yamaguchi viveu com as marcas físicas e morais daqueles três dias. Só mais tarde se tornaria uma voz pública contra as armas nucleares, transformando a sobrevivência numa responsabilidade.

Não falava como símbolo abstrato. Falava como alguém que tinha visto duas vezes o limite do mundo moderno.
“Tendo vivido dois bombardeamentos atómicos e sobrevivido, é meu destino falar sobre isso.”
— Tsutomu Yamaguchi