Não é Ficção

Um pastor de 61 anos apareceu numa ultramaratona de 875 km

E ninguém percebeu o que ele estava a fazer.

Um pastor de 61 anos apareceu numa ultramaratona de 875 km

Sydney, Austrália, 1983. Sábado 27 de Agosto, sete da manhã o ar ainda é fresco. Alguém diz, atrás das câmaras, quase como quem repete algo que já ouviu demasiadas vezes:

— Oitocentos e setenta e cinco quilómetros até Melbourne.

Outro responde:

— Cinco dias, se tudo correr bem.

Os corredores estão concentrados, cada um fechado no seu próprio espaço, como se a corrida já tivesse começado ali. Alongam em silêncio, testam o corpo, ajustam pequenos detalhes que só eles parecem notar.

Punhos apertam-se, gémeos esticam contra o asfalto ainda frio. Uns fazem alongamentos, outros um aquecimento leve.

Nos pulsos, relógios digitais são ajustados com precisão quase ritual. Nos pés, ténis limpos, de cores agressivas, alguns ainda demasiado novos para esta distância. As marcas repetem-se — reconhecíveis mesmo para quem não corre.

Alguns já passaram por aquilo antes. À volta deles, pequenas equipas falam baixo, trocam indicações curtas, quase sussurradas. Logótipos nas camisolas, nas pernas, nos bonés. Outros quase não falam.

E depois há um homem que parece ter vindo ao sítio errado. Tem sessenta e um anos. Veste jardineiras. Calças impermeáveis cortadas à mão. E nos pés, galochas. Não aquece. Não alonga. Fica ali, parado, como se estivesse à espera de outra coisa.

Dois jornalistas aproximam-se, meio a sorrir.

— Veio ver a corrida?

Ele abana a cabeça.

— Não. Vou correr.

Há um silêncio curto, daqueles que não chegam a ser desconfortáveis.

— E o que faz?

— Sou agricultor.

Pausa, e depois continua.

— Costumo correr atrás de ovelhas.

Os jornalistas trocam um olhar rápido, quase imperceptível. Alguém ri-se. Não muito alto. Atrás deles, alguém volta a dizer “875 quilómetros”, como se fosse importante repetir.

O homem fica ali, tranquilo, como se aquilo não tivesse nada de especial. Ninguém percebe bem porque é que ele está ali.

Antes da partida, alguns falam do tempo como quem fala de outra coisa qualquer.

— Dezoito horas hoje.

— Depois paramos seis… dormimos cinco.

Não há dramatismo na voz. É só o plano. Um deles aponta para o relógio, como se já estivesse a dividir o dia em blocos. Outro acena, confirma. Já fizeram isto antes.

Mais atrás, uma carrinha de apoio tem as portas abertas. Garrafas alinhadas, gel energético, sacos preparados, nomes escritos com marcador. Há alguém a rever listas, a contar coisas que não se veem bem daqui.

Um corredor baixa-se, aperta melhor os atacadores. Outro fecha os olhos por um momento, como se estivesse a guardar energia antes de começar a gastá-la.

Falam pouco, mas quando falam, sabem exatamente do que estão a falar. Ninguém ali está a improvisar.

Noutra carrinha, mais discreta, há apenas água, alguns legumes e uma garrafa térmica com chá.

Quando a corrida começa, o grupo arranca quase em bloco. Durante os primeiros minutos, ainda parecem juntos, mas pouco a pouco o ritmo separa-os. Os corpos encontram cadência, as passadas alongam-se, o som torna-se mais leve, mais rápido.

E depois há aquele homem. Não corre como os outros. Os passos são curtos, quase arrastados, como se estivesse a poupar qualquer coisa que ainda não chegou a usar. Os braços não acompanham o ritmo. O corpo inclina-se ligeiramente para a frente, mas sem pressa. Não há aceleração, nem tentativa de acompanhar.

Durante os primeiros minutos há um momento de confusão. Ele segue na direção errada. Alguém grita para ele voltar. Ele vira-se, sem pressa, e continua. Os outros passam por ele com facilidade, um a um, sem olhar duas vezes. Em poucos minutos, já vai sozinho. À distância, o movimento dele parece errado. Desajustado. Como se tivesse começado uma corrida diferente.

Ao cair da noite, o ritmo muda. As carrinhas começam a aparecer mais vezes na berma da estrada. Faróis acesos. Portas abertas. Alguém chama um nome.

Um a um, os corredores começam a parar. Sentam-se no chão, encostam-se à roda da carrinha, tiram os ténis. Há mãos a ajudar, vozes baixas, movimentos já ensaiados. Alguns deitam-se quase imediatamente, como se o corpo já soubesse o que fazer.

A estrada, que durante o dia estava cheia, começa a esvaziar. Ficam menos luzes. Menos passos. E depois, quase nada. Os camiões passam demasiado perto. O vento puxa o corpo para trás. Pequenas pedras levantam-se do asfalto.

Nessa primeira noite, o seu treinador e massagista, Wally Zeuschner, que tinha má visão, engana-se e marca o despertador para as duas da manhã, quando a intenção era acordá-lo apenas por volta das seis. Cliff acorda, levanta-se e volta à estrada ainda de noite. Durante algum tempo não percebe o que está a acontecer, até começar a estranhar a ausência do nascer do sol. Pergunta ao treinador, que lhe responde apenas: “Continua a correr”

Só um homem continua a correr. O mesmo ritmo curto, arrastado. Sem olhar para os lados. Sem hesitar. Passa por uma carrinha onde alguém está a dormir. Depois por outra. E outra. Ninguém lhe diz nada. Ele também não pergunta. Continua. Como se ainda não tivesse chegado a hora de parar.

De manhã, a estrada volta a encher-se. Os corredores reaparecem, um a um, saídos das carrinhas, ainda com o corpo pesado do descanso curto. Retomam o ritmo, como se estivessem a continuar algo que ficou em pausa.

Durante algumas horas, tudo parece normal outra vez. Mas quando a noite volta, os mesmos gestos repetem-se: parar, sentar, tirar os ténis, deitar.

E ele continua. O mesmo passo curto. A mesma inclinação do corpo. O mesmo ritmo que não muda. Passa pelos outros enquanto dormem. Alguns nem chegam a vê-lo. De manhã, já levava uma vantagem de cerca de 30 quilómetros sobre os outros corredores.

Ao segundo dia, começam a notar pequenas diferenças, quase imperceptíveis no início. Um corredor que estava à frente já não aparece durante algum tempo. Outro demora mais a regressar à estrada depois de uma paragem. As posições deixam de ser tão claras como no primeiro dia, mas ninguém parece preocupado com isso.

Durante a noite, enquanto alguns descansam nas carrinhas ou encostados à berma, ele passa por eles sem alterar o ritmo, como se estivesse apenas a continuar um movimento que não precisa de interrupção.

Não acelera. Não observa. Não reage.

De manhã, alguns voltam a ultrapassá-lo, recuperados por algumas horas, ainda dentro do plano que definiram antes da partida.

À medida que os dias avançam, há cada vez menos corredores à frente dele, e mais atrás. A diferença instala-se sem anúncio, sem momento claro em que tudo muda. Ninguém vê exatamente quando acontece. Quando dão por isso, já há mais espaço à frente do que atrás. E ele continua, dentro desse espaço, com o mesmo passo de sempre.

Ao terceiro dia, o nome dele começa a surgir com mais frequência. Primeiro entre os organizadores, em conversas rápidas, quase logísticas, como se estivessem a confirmar um detalhe que não bate certo. Um deles olha para uma lista, volta a olhar, e chama outro para confirmar.

Mais tarde, os jornalistas começam a aproximar-se da estrada em pontos onde sabem que ele vai passar. Já não estão ali por acaso. Esperam. Quando ele aparece, o movimento é o mesmo de sempre. Não abranda, não levanta a cabeça, não reage às câmaras.

Alguém diz o nome dele em voz alta, como se estivesse a testá-lo. Ele não responde. Ao longo do dia, mais pessoas começam a falar dele. Nas carrinhas, nas paragens, entre quem acompanha a corrida à distância.

Deixa de ser apenas aquele homem estranho da partida. Ainda não é um favorito. Mas já não passa despercebido.

Ao quinto dia, a meta já está preparada. Há pessoas à espera, mas não em número suficiente para aquilo que está prestes a acontecer. Alguns organizadores olham para a estrada, uma e outra vez. Alguém diz que ele está perto.

Quando finalmente aparece, não há aceleração nem gesto final. O movimento é exatamente o mesmo que tinha no primeiro dia — passo curto, constante, ligeiramente inclinado para a frente.

À medida que se aproxima da cidade, algumas pessoas começam a correr ao lado dele. Primeiro poucos. Depois mais. Há barulho, mas ele não reage. Aproxima-se sem pressa.

Cruza a meta quase da mesma forma como atravessou tudo o resto. Sem levantar os braços. Sem parar imediatamente. Só depois abranda. O tempo é registado: cinco dias, quinze horas e quatro minutos. O segundo classificado está a mais de dez horas atrás.

Cliff Young chegando a Melbourne. Fez buracos nas suas calças impermeáveis para ventilação.

Durante alguns segundos, há um silêncio estranho, como se ninguém tivesse preparado bem aquele momento. Ele fica ali, tranquilo, como se tivesse acabado apenas mais um dia de trabalho.

Só mais tarde é que lhe explicam que havia um prémio. O vencedor recebia dez mil dólares. Ele ouve com atenção e acena ligeiramente, como se estivesse apenas a confirmar que percebeu, sem mostrar grande reação.

Não faz perguntas. Fica ali durante algum tempo, como se ainda estivesse a perceber o que aquilo significa. Depois diz que não precisa do dinheiro, e que há outros corredores que lutaram tanto como ele para chegar ali. Decide dividi-lo pelos cinco primeiros.

Fá-lo sem cerimónia, sem qualquer tipo de discurso, como se fosse a coisa mais natural. Mais tarde, alguém lhe pergunta porque é que nunca parou para dormir.

Ele olha, surpreendido, como se a pergunta não fizesse muito sentido. E responde:

— Pensei que não se podia parar. Que era suposto correr até ao fim.

Um pastor de 61 anos apareceu numa ultramaratona de 875 km

Anos mais tarde

O nome dele ainda aparece, em corridas, em histórias, em conversas entre pessoas que nunca o viram correr.

Há quem tente copiar o movimento.

Passos curtos. Corpo inclinado. Ritmo constante. Nem sempre resulta.

Numa pequena localidade em Victoria, há uma estátua. Não dele. De uma bota de borracha. As mesmas que usava quando corria atrás das ovelhas.

Morreu em 2003, tinha oitenta e um anos.

Curiosidade: O passo que parecia errado

O “shuffle” parecia errado — mas funcionava

O estilo de corrida de Cliff Young ficou conhecido como Cliff Young Shuffle. À primeira vista parecia desajeitado, quase arrastado, mas revelou-se surpreendentemente eficiente em longas distâncias.

Corria mais baixo, gastava menos energia: Em vez de levantar muito os pés, mantinha-os perto do chão, com passos curtos e contínuos. Isso reduzia o esforço e permitia-lhe manter o movimento durante horas, quando outros já precisavam de parar.

O corpo absorvia o impacto de outra forma: Ao contrário da corrida tradicional, onde o impacto recai muitas vezes nas articulações, o estilo dele distribuía melhor esse esforço pelo corpo, o que ajudava a aguentar centenas de quilómetros.

O ritmo não quebrava: Mantinha uma cadência constante, sem alongar demasiado a passada. Não havia picos nem acelerações — apenas continuidade.

Nasceu na quinta, não no treino: Nada disto foi aprendido em pista. O movimento veio de anos a correr atrás de ovelhas, muitas vezes com galochas, em terrenos irregulares e durante longos períodos.

Acabou por influenciar outros corredores: Depois da sua vitória, o “shuffle” deixou de ser visto como uma curiosidade e passou a ser experimentado por outros atletas, especialmente em provas de ultra-resistência.

Ainda hoje é usado: Em algumas ultramaratonas, este tipo de corrida continua a ser ensinado como uma forma de conservar energia ao longo de grandes distâncias.

Calças de Plástico: A determinada altura da prova, ele utilizou calças de plástico impermeáveis (semelhantes às de golfe), nas quais fez buracos para ventilação; estas foram as suas únicas calças do início ao fim da corrida.