Durante algum tempo, a Ericeira teve um rei.
E não era quem devia ser
Não foi um rei saído de um palácio, cercado por fidalgos, montado num cavalo de guerra e protegido por um exército disciplinado. Foi um rei improvável, nascido longe da corte, filho de pedreiros, criado na pobreza, feito de rumor, fé e desespero. Vivia numa ermida junto ao mar, alimentava-se de esmolas e, durante algum tempo, houve quem jurasse que aquele homem magro e misterioso era D. Sebastião regressado do nevoeiro para salvar Portugal.
Parece a matéria de uma lenda, daquelas histórias que uma terra conta a si própria para dar mais espessura ao passado. Mas aconteceu mesmo. E aconteceu na Ericeira.
No final do século XVI, Portugal vivia um dos seus momentos mais frágeis. O esplendor dos Descobrimentos já não bastava para esconder a exaustão do reino, a economia fraquejava, os impostos apertavam e, mais humilhante do que tudo o resto, o país encontrava-se, pela primeira e única vez na sua história, sob o domínio de um rei estrangeiro. Depois do desaparecimento de D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, e da crise sucessória que se seguiu, Filipe II de Espanha assumira a coroa portuguesa. O país não deixara de existir, mas deixara de se governar a si mesmo, e isso, num povo habituado a imaginar-se escolhido por Deus e empurrado para o mar por um destino imperial, não era uma ferida pequena.

Foi nesse vazio que cresceu o sebastianismo, a crença de que D. Sebastião, o rei desaparecido, não morrera em África e regressaria um dia para restaurar a independência e devolver ao reino a sua antiga grandeza. Não era apenas uma superstição. Era uma necessidade coletiva. Quando um povo perde o chão, inventa ou agarra-se à promessa de que alguém virá repô-lo no lugar. Em Portugal, esse alguém tinha nome, rosto e uma aura quase messiânica. Chamavam-lhe o Desejado. Mais tarde chamar-lhe-iam também o Encoberto.
Ora, numa época assim, bastava pouco para que um homem se transformasse numa possibilidade.
Mateus Álvares nascera em 1530, na ilha Terceira, nos Açores. Não tinha sangue real, nem qualquer ligação à nobreza. Era filho de uma família humilde de pedreiros. Ainda novo veio para o continente, entrou como noviço num convento em Óbidos, passou depois pelos Capuchos de Sintra e acabou por abandonar a vida conventual para se tornar eremita. Instalou-se na ermida de São Julião, nas imediações da Ericeira, num lugar isolado, próximo do mar, exposto ao vento, ao sal e ao nevoeiro. Durante dois anos viveu como tantos eremitas daquele tempo: afastado do mundo, sustentado pela caridade alheia, cercado por uma reputação de penitência e santidade que o tornava, aos olhos dos simples, mais próximo do céu do que da terra.

Não era raro, naquele tempo, que os eremitas fossem vistos como homens tocados por alguma forma de revelação. Viviam sozinhos, mortificavam o corpo, falavam pouco e despertavam respeito. À volta deles cresciam rumores com facilidade. No caso de Mateus Álvares, esses rumores encontraram depressa alimento. Diz-se que durante a noite soltava gritos, batia no corpo, entregava-se à autoflagelação e pronunciava frases enigmáticas sobre Portugal, sobre culpa, sobre penitência, como se falasse de um destino que o excedia. O suficiente para que começasse a circular a pergunta que, naquele país ferido, quase toda a gente desejava fazer: e se fosse ele?
A semelhança física com a imagem popular de D. Sebastião ajudou o resto. A imaginação completou o que a realidade não dava. Primeiro vieram os curiosos, depois os devotos, depois os convencidos. Pescadores, camponeses, gente da região, mas também homens com posses e influência começaram a subir a São Julião para ver com os seus próprios olhos o eremita de quem se dizia ser o rei perdido. No início, Mateus Álvares terá negado. Mas há uma altura em que a insistência dos outros acaba por abrir uma porta dentro de nós. E quando um proprietário local, António Simões, homem respeitado e abastado, declarou sem hesitação que aquele era D. Sebastião, Mateus Álvares deixou de resistir ao papel que lhe ofereciam. Aceitou-o. E ao aceitá-lo, passou de eremita a rei.
Ou, mais precisamente, ao rei da Ericeira.
É difícil medir hoje a força daquele gesto. Não se tratava apenas de um delírio individual. O que aconteceu na Ericeira foi uma colisão entre carência política, crença religiosa, humilhação nacional e teatro popular. Mateus Álvares não convenceu uma vila sozinho. A vila precisava de ser convencida. Precisava de acreditar que a história ainda podia dar uma volta, que o rei desaparecido podia reaparecer sob uma forma inesperada, que o império espanhol, por mais poderoso que fosse, podia ser desafiado por um homem saído de uma ermida.
Ao lado de Mateus Álvares surgiram rapidamente figuras decisivas. António Simões não foi apenas o primeiro a proclamá-lo: deu-lhe legitimidade social. Pedro Afonso, lavrador rico, ex-soldado e feroz inimigo do domínio castelhano, trouxe-lhe o que os visionários raramente têm: capacidade prática, recursos, homens e vontade de avançar. Há uma frase atribuída a Pedro Afonso que resume bem o espírito do movimento. Pouco lhe importava, dizia ele, que Mateus Álvares fosse ou não fosse o verdadeiro D. Sebastião. Antes do dia de São João, garantiu, ele estaria sentado no trono.
Essa frase talvez diga mais verdade do que muitas proclamações régias da época. Para muitos daqueles homens, a identidade exata de Mateus Álvares era menos importante do que a utilidade política do mito. O que interessava era encontrar um rosto para a revolta.
E a revolta tomou forma.
Na Ericeira, onde o aumento de impostos, a crise económica e o peso do governo filipino se faziam sentir na pele, Mateus Álvares encontrou terreno fértil. A vila vivia da pesca e do comércio marítimo, mas o ambiente era de desgaste e frustração. Nas tabernas discutia-se política, falava-se da perda da independência, repetia-se a lenda do rei que havia de voltar. O eremita de São Julião apareceu, portanto, no lugar certo e no momento certo.
Em pouco tempo, Mateus Álvares reuniu perto de mil homens. Não era um exército no sentido clássico, mas era gente suficiente para assustar as autoridades. Havia pescadores, camponeses, pequenos proprietários, homens armados com paus, canas, bastões, vontade e fúria. O número, por si só, impressiona.
A certa altura, porém, o movimento deixou de viver apenas de rumores e passou a encenar o poder.
Houve um cortejo. Houve um casamento. Houve uma coroação.
Mateus Álvares percorreu a vila como um soberano em procissão. À frente seguiam homens armados de maneira rudimentar, fazendo de guarda real. Vinham depois os seus “reis de armas”, jovens de terras próximas, sem grande aparato mas com toda a solenidade possível. Pedro Afonso surgia em destaque. O próprio Mateus Álvares seguia montado num cavalo branco, enquanto António Simões segurava as rédeas. Ao lado dele vinha Ana Susana, filha de Pedro Afonso, escolhida para rainha.
No Largo do Jogo da Bola, perante uma multidão expectante, realizou-se a cerimónia. O capelão declarou o casamento, o povo viu, ouviu, acreditou. E no momento culminante, Ana Susana foi coroada com uma coroa roubada de uma imagem de Nossa Senhora.

O gesto era ao mesmo tempo sacrílego e profundamente simbólico.
Mateus Álvares começou então a agir como rei também no papel. Redigiu cartas, enviou despachos, distribuiu títulos, assinou documentos como se a restauração já estivesse em marcha. Numa das demonstrações mais ousadas de toda esta história, escreveu diretamente ao cardeal-arquiduque Alberto, exigindo que abandonasse o Paço da Ribeira e regressasse a Castela.
Quando a carta chegou à corte, foi lida com espanto e riso. Mas a situação já não era uma farsa. Já havia sangue.
Na Ericeira, um magistrado e o seu escrivão tinham sido capturados pelos revoltosos e acabariam lançados ao mar nas arribas. Em Mafra, Gaspar Pereira do Lago — juiz da corte e homem ligado ao poder filipino — fora sequestrado na sua própria quinta e morto juntamente com familiares.

O que começara como um rumor transformava-se agora numa revolta aberta.
A repressão foi rápida. Os revoltosos foram dispersados, capturados, torturados. Mateus Álvares acabou traído e preso. Entrou em Lisboa de mãos atadas e foi encerrado no Limoeiro.
Durante o interrogatório, Mateus Álvares confessou de imediato não ser o rei D. Sebastião. Não tentou prolongar a mentira nem se refugiou em evasivas. Explicou que o seu verdadeiro propósito era unir os portugueses contra o domínio castelhano e libertar o país, e acrescentou, com uma clareza que surpreendeu quem o ouvia, quais seriam as suas palavras caso a sua missão tivesse triunfado:
— “Olhai bem para mim, não sou rei D. Sebastião, mas sou um homem bom, um bom português que vos libertou do jugo castelhano. Agora que sois livres, escolhei e proclamai rei quem quiserdes.”
A frase ficou registada e teve um efeito imediato. Não soava como a confissão de um impostor derrotado, mas como a formulação de uma ideia perigosa. Ao afirmar que não era o rei e, ainda assim, ao reivindicar para si o papel de libertador, Mateus Álvares deslocava o centro do poder: não estava num nome, nem numa linhagem, mas na possibilidade de escolha.
Foi isso que alarmou os juízes. A indulgência concedida anteriormente ao chamado rei de Penamacor — condenado às galés — não podia repetir-se naquele caso. Mateus Álvares não era apenas mais um impostor. Tinha reunido um exército, provocado mortes e desafiado abertamente o poder de Filipe II. Mais do que isso, deixara uma ideia no ar que, se fosse tolerada, poderia ser repetida por outros.
Mateus Álvares foi conduzido ao cadafalso. O carrasco executou a sentença no meio de um silêncio pesado, quase cerimonial. Começou por cortar-lhe a mão direita — a mesma com que assinara decretos e proclamações em nome de D. Sebastião — cumprindo à letra a punição destinada a quem ousava falsificar a autoridade real. Em seguida, foi enforcado, juntamente com vários dos seus companheiros.
Mas a morte não era o fim. Era apenas o início do castigo público.
O corpo foi decapitado e a cabeça, ainda ensanguentada, colocada numa ponta de ferro no Pelourinho de Lisboa, no local onde hoje se abre a Praça do Município. Ficava ali exposta, elevada acima da cidade, para que todos vissem e entendessem. Não se tratava apenas de punir um homem, mas de marcar um exemplo.
O restante corpo foi esquartejado. Os membros foram separados e distribuídos pelas portas da cidade, expostos à vista de quem entrava e saía, transformando Lisboa num mapa de aviso. Durante dias, sob o calor do verão, os restos ficaram ali, cobertos por moscas, observados de longe, evitados de perto, lembrando a todos o preço da desobediência.
Na Ericeira, a repressão seguiu o mesmo princípio. Na atual Rua do Alto da Forca ficaram pendurados os corpos de cerca de vinte cúmplices de Mateus Álvares, executados no mesmo gesto de castigo e demonstração de poder. Outros insurgentes foram condenados a penas severas nas galés, onde passariam anos acorrentados aos remos, num esforço contínuo que consumia o corpo até ao limite.
Pedro Afonso, sogro e um dos mais determinados aliados de Mateus Álvares, conseguiu fugir durante algum tempo, mas acabou por ser localizado após uma perseguição persistente conduzida pelo corregedor Diogo da Fonseca. Levado a Lisboa, confirmou no tribunal aquilo que o seu genro já tinha declarado e recebeu a mesma sentença. Também ele foi executado.
Assim terminou a revolta do rei da Ericeira. Não com um último confronto, mas com uma sequência de punições pensadas para eliminar não apenas os homens, mas a possibilidade de repetição.
Mateus Álvares, embora não fosse rei, tornou-se uma figura de resistência contra a ocupação estrangeira.
E assim acabou o rei da Ericeira.
Consta que no Largo Jaime Lobo e Silva existiu um edifício onde residiu o célebre Rei da Ericeira, Mateus Álvares, edifício que, por sentença, foi demolido e o seu chão salgado.

Ou talvez não tenha acabado por completo.
Na Ilha Terceira, no município da Praia da Vitória, onde nasceu Mateus Álvares, existe hoje a única homenagem a este homem que, vindo da pobreza, com pouco mais do que um sonho, alguma eloquência e uma coragem fora do comum, ousou desafiar o poder do único rei sem nacionalidade portuguesa a ocupar o trono de Portugal.
A antiga Rua Nova do Rossio mudou de nome. Passou a chamar-se Rua Mateus Álvares.

Há uma ideia simples que talvez explique melhor do que qualquer análise aquilo que ficou:
“Porque um povo ama e odeia as pessoas, as coisas e as situações, ele relaciona-as com o ambiente em que vive. Ele dá o nome de tudo isto aos lugares e às ruas em que vive para que ninguém esqueça o que aconteceu ou existiu de bom e de mal”.
Dar o nome de Mateus Álvares a uma rua não é apenas homenagear um homem. É aceitar a complexidade da sua história.
E talvez seja isso que fica. Não o rei que nunca foi, nem a revolta que falhou, mas a prova de que, durante algum tempo, houve quem acreditasse que era possível.



